A Shell declarou apoio ao plano de recuperação extrajudicial da Raízen, formalizado nesta sexta-feira (6). Em nota, a companhia informou que a reestruturação deve proporcionar maior estabilidade financeira e uma trajetória mais clara para o futuro. Segundo a petroleira, o plano também preserva a presença da marca Shell nos mercados brasileiros de postos de combustíveis, lubrificantes e aviação.
No comunicado, a Shell afirmou ainda que manterá sua participação no conselho de administração da Raízen. A empresa informou que seguirá trabalhando com a equipe de gestão da companhia, credores e demais partes interessadas para apoiar a implementação do plano e a sustentabilidade de longo prazo do negócio.
O conteúdo divulgado não detalha valores envolvidos, prazos da reestruturação, condições negociadas com credores nem o alcance operacional do plano de recuperação extrajudicial. Também não foram informadas, no material disponível, medidas específicas sobre ativos, endividamento ou eventuais ajustes financeiros.
A manifestação da Shell ocorre em um momento de reorganização da Raízen, companhia com atuação relevante nos segmentos de combustíveis, logística e bioenergia. No caso do público do agronegócio, o tema tem conexão com a cadeia sucroenergética, já que a empresa participa de atividades relacionadas à produção de etanol e à oferta de energia associada ao setor.
Do ponto de vista técnico, o apoio de uma acionista estratégica e parceira comercial sinaliza continuidade institucional durante a execução do plano. Esse fator é acompanhado pelo mercado porque pode influenciar a condução da reestruturação, a relação com credores e a manutenção das operações nos segmentos citados pela empresa.
Até o momento, porém, não há informações suficientes no conteúdo disponível para medir efeitos práticos sobre fornecedores, produtores de cana, distribuição de combustíveis ou investimentos futuros da companhia.
A evolução do processo dependerá da implementação do plano e da divulgação de informações adicionais sobre condições financeiras, cronograma e alcance da reestruturação. Sem esses dados, a extensão dos desdobramentos para a cadeia de energia e bioenergia ainda não pode ser dimensionada de forma objetiva.
O Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) publicou aviso amarelo (perigo potencial) para chuva de até 50 mm e ventos intensos que podem chegar a 60 km/h para quase todo o estado do Rio Grande do Sul, faixa oeste de Santa Catarina e sudoeste paranaense.
O órgão também alerta para risco de queda de granizo, além de chances de corte de energia elétrica, estragos em plantações, queda de galhos de árvores e de alagamentos nas áreas afetadas. O aviso é válido para toda a segunda-feira (8).
De acordo com o Inmet, as áreas que podem ser mais afetadas são as seguintes, conforme o mapa abaixo: região metropolitana de Porto Alegre, sudoeste, noroeste, nordeste, centro e sudeste rio-grandense, oeste catarinense e sudoeste paranaense.
Na última segunda-feira (1°), crianças de nove a doze anos da periferia do município de Marabá participaram de uma excursão ao campus rural do Instituto Federal do Pará (IFPA). A área, com mais de 350 hectares, está localizada ao lado do Assentamento 26 de Março, às margens da BR-155, no sudeste do Pará.
A ação foi conduzida pelo escritório local da Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural do Estado do Pará (Emater).
A programação proporcionou aos alunos do 5º ano da Escola Municipal de Ensino Fundamental (Emef) Teresa de Castro Aquino Silva, uma manhã inteira de passeios, experiências sensoriais e troca de conhecimento dentro de áreas com plantio de café, criação de abelhas e reflorestamento.
Um dos destaques foi a caminhada guiada pela Trilha das Castanheiras: 750 metros recuperados com novas árvores de castanha-do-pará.
O grupo coroou o momento com o plantio, pelas próprias mãos, de 20 mudas de açaí, cacau, cupuaçu e pau-preto. “Muito legal a gente ver que a floresta é viva e entender que as plantas servem até pra alimentação dos animais da floresta e dos pets”, disse uma das crianças, entusiasmada.
Importância
A gestora escolar Rosiane Silva destacou a importância da parceria entre instituições públicas na promoção de educação ambiental e interação com a comunidade.
“É o tipo de evento que fortalece a conscientização das nossas crianças sobre a necessidade de cuidar e de preservar a natureza. Juntar diferentes equipes que atuam com políticas públicas contribui para aproximar teoria e prática, o que incentiva atitudes de proteção ao meio ambiente e formação de cidadãos”, disse.
Para o chefe do escritório local da Emater em Marabá, Antônio Edielson Melo, desenvolvimento sustentável é uma diretriz de atuação da Emater, inclusive em ações de divulgação.
“Pensar em desenvolvimento humano obriga a se pensar em meio ambiente: garante sustentabilidade dos sistemas, produção saudável de alimentos, perpetuação de todas as espécies e defesa do planeta Terra”, afirmou.
O produtor rural brasileiro faz a sua parte. Investe em genética, cumpre protocolos rígidos e gasta milhões para entregar a melhor proteína do mundo. Mas, da porteira para fora, o esforço do campo esbarra na lentidão de quem deveria defendê-lo.
A exclusão do Brasil da lista de exportadores da União Europeia é o reflexo disso. A partir de 3 de setembro de 2026, o bloqueio legal entra em vigor. O problema não está na qualidade da carne brasileira, mas na incapacidade de demonstrar à União Europeia, dentro dos critérios exigidos, as garantias regulatórias e de rastreabilidade solicitadas.
Dizer que fomos pegos de surpresa é inaceitável. A janela para enviar os documentos sobre o controle de antibióticos abriu em outubro de 2024. Países como Argentina e Uruguai entregaram tudo no prazo e seguem autorizados.
O Brasil não conseguiu atender plenamente às exigências técnicas estabelecidas pela União Europeia dentro do cronograma previsto. O governo não conseguiu apresentar, de forma considerada suficiente pelas autoridades europeias, a documentação necessária para comprovar a rastreabilidade exigida pelo bloco.
Prejuízo além das cifras
A União Europeia pode não ser o nosso maior comprador em volume. No entanto, o bloco funciona como a maior vitrine regulatória do planeta. Ser barrado por Bruxelas arranha gravemente a nossa imagem internacional.
A decisão fortalece argumentos de grupos protecionistas europeus que defendem restrições adicionais às importações agropecuárias, ameaçando até o acordo Mercosul-UE. O prejuízo potencial passa de US$ 1,8 bilhão ao ano, afetando a carne bovina, de frango e o mel.
O Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) agora corre contra o tempo com novas portarias e protocolos de última hora. Mas o setor produtivo não aceita mais desculpas genéricas e exige que a Secretaria de Defesa Agropecuária responda diretamente:
— Secretário, por que o Mapa não apresentou a documentação exigida pela UE dentro dos prazos estabelecidos? Sabendo que os europeus exigiam garantias irredutíveis contra promotores de crescimento como a virginiamicina, a voparcina e bacitracina?
E as perguntas não param por aí! Se o ministério publicou às pressas uma portaria proibindo substâncias como a tilosina, espiramicina e avilamicina, por que a pasta não organizou antes os relatórios técnicos oficiais exigidos desde 2024?
Por que a diplomacia agrícola insistiu em propor um “remendo” de transição de nove meses, quando Bruxelas já havia avisado que exigiria o controle dessas moléculas durante todo o ciclo de vida do animal?
E ainda: como o ministério pretende restabelecer nossa credibilidade internacional antes de setembro se o sistema público não conseguiu apresentar as garantias sanitárias e de rastreabilidade exigidas pela União Europeia?
O agronegócio carrega a economia do país nas costas e não pode pagar a conta da inércia administrativa. Os responsáveis precisam se manifestar já. O produtor investiu, cumpriu protocolos e produziu. Quem ficou devendo foi o Estado. E quando a burocracia falha, não é Brasília que paga a conta. É o campo.
*Miguel Daoud é comentarista de Economia e Política do Canal Rural
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A detecção ocorre em fase sensível para frigoríficos e produtores – Foto: Bing
A confirmação de um caso de verme-da-bicheira-do-novo-mundo nos Estados Unidos colocou a pecuária em alerta em um momento de oferta restrita e preços elevados da carne bovina. A ocorrência, a primeira em quase uma década no país, surge quando o rebanho americano está no menor nível em 75 anos.
O Departamento de Agricultura dos Estados Unidos informou que o parasita foi detectado em um bezerro de três semanas no condado de Zavala, no sul do Texas. As larvas estavam na região do umbigo. A doença é causada pela mosca Cochliomyia hominivorax e é considerada uma das mais prejudiciais à pecuária, por poder matar bovinos em poucos dias.
Segundo o USDA, este é o único caso monitorado até agora. A agência adotou quarentenas, controle de movimentação de animais e vigilância em um raio de 20 quilômetros do foco. Também acelerou a liberação de moscas estéreis para impedir a reprodução do parasita.
A detecção ocorre em fase sensível para frigoríficos e produtores. A escassez de animais já vinha elevando custos e pressionando margens, enquanto os preços ao consumidor atingiam recordes. A situação foi agravada pelo avanço da praga no México, que levou os Estados Unidos a suspenderem importações de gado vivo mexicano.
O mercado reagiu aos relatos sobre o caso. As ações da Tyson Foods recuaram 4,2%, e os papéis da JBS NV fecharam no menor valor desde o início de suas negociações nos Estados Unidos. Já empresas de tratamentos veterinários tiveram valorização.
A Federação de Exportação de Carne dos EUA informou que não espera interrupções nas vendas externas. O último registro da praga no país ocorreu em 2016, entre cervos nas ilhas Florida Keys, e foi erradicado no início de 2017.
A União Europeia (UE) confirmou na sexta-feira (5) que deixará de autorizar, a partir de 3 de setembro de 2026, a importação de carnes e outros produtos de origem animal do Brasil em categorias específicas. A decisão foi publicada em comunicado da Comissão Europeia e está vinculada à exigência de garantias adicionais sobre o cumprimento das regras do bloco para o uso de antimicrobianos na produção animal. Segundo o texto, o Brasil ainda não apresentou informações suficientes para comprovar a adoção das medidas requeridas.
A restrição atinge bovinos, equídeos, aves, aquicultura, mel e tripas. Em maio, a UE já havia retirado o Brasil da lista de países aptos a exportar essas categorias ao bloco. Agora, a medida foi confirmada com vigência a partir de setembro.
De acordo com o documento publicado no Jornal Oficial da União Europeia, a Comissão Europeia informou que não recebeu dados que assegurem que o Brasil aplicou, até o prazo estabelecido, as medidas necessárias para atender ao artigo 3º do Regulamento Delegado (UE) 2023/905. Esse regulamento trata de exigências relativas ao uso de determinados antimicrobianos, incluindo antibióticos, na produção animal destinada ao mercado europeu.
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O ponto central da exigência é a capacidade de o país exportador comprovar, com base em fiscalização oficial e rastreabilidade, que os produtos enviados ao bloco não foram obtidos com o uso de substâncias vedadas pela norma europeia. As tratativas envolveram também a segregação da produção e a verificação de protocolos privados adotados por produtores e indústrias.
Segundo as informações disponíveis, o Brasil apresentou dados adicionais no fim de maio e realizou reunião técnica com a Direção-Geral da Saúde e Segurança Alimentar da Comissão Europeia. Parte da documentação foi entregue, e outra remessa ainda estava em preparação, sem prazo informado para envio.
O mercado europeu representa cerca de US$ 1,8 bilhão por ano em exportações brasileiras de proteínas, segundo os dados citados no material de origem. Até a publicação do texto-base, o Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) e o Ministério das Relações Exteriores não haviam se manifestado oficialmente.
O desdobramento da medida dependerá da capacidade de o Brasil apresentar garantias sanitárias aceitas pela UE dentro dos critérios do regulamento europeu. Sem manifestação oficial adicional até o momento, não há base técnica suficiente para projetar eventual revisão do veto ou prazo para retomada dessas exportações.
Um grupo de parlamentares brasileiros esteve em Washington, de 3 a 5 de junho, com o objetivo de apresentar um contraponto aos argumentos da direita brasileira junto a instituições estadunidenses.
Formado pelos deputados federais Pedro Uczai (PT/SC), Jandira Feghalli (PcdoB/RJ), Pedro Campos (PSB/PE) e André Janones (Rede/MG), o grupo governista representa 114 deputados de suas bancadas.
Segundo Feghalli, a delegação focou em três pontos principais: reafirmar a soberania brasileira em sua economia, democracia e política; entregar três documentos a parlamentares e instituições norte-americanas; e discutir as tarifas impostas ao Brasil, como o PIX, que, segundo os parlamentares, não possuem base técnica jurídica.
A deputada federal explicou que um desses documentos solicita cooperação, e não intervenção, no combate ao crime organizado, abrangendo tráfico de armas, tráfico de drogas, monitoramento de recursos e outras pautas de cooperação já solicitadas pelo governo brasileiro.
Em outro texto, os deputados contestam, com contribuições de especialistas em economia, as tarifas impostas pelo governo de Donald Trump, argumentando que elas têm um sentido político e não se justificam.
“A questão do PIX foi abordada com a declaração de que não será aceita qualquer intervenção que inviabilize, fragilize ou dificulte o uso do PIX, considerado uma soberania financeira do povo brasileiro e uma ferramenta moderna para transações financeiras gratuitas, transparentes e lícitas”.
Segundo a deputada, na Organização dos Estados Americanos (OEA), a missão abordou o aspecto democrático do ano eleitoral, alertando sobre possíveis intervenções diretas dos Estados Unidos, crimes no ambiente digital e violência política física, de gênero e geral.
“Foi solicitado o acompanhamento e observação da OEA, não apenas da Comissão Interamericana de Direitos Humanos, mas também da Secretaria de Fortalecimento da Democracia, cujo observatório eleitoral já teve o acompanhamento solicitado pelo governo brasileiro para as eleições”, informou Feghalli.
De acordo com a deputada, parlamentares americanos demonstraram sensibilidade e muitos se comprometeram a tomar iniciativas em relação aos temas apresentados.
“A missão considerou sua atuação produtiva e válida na conjuntura atual. A missão foi concluída com a sensação de dever cumprido e vamos acompanhar os desdobramentos”, finalizou.
A perda de força do real em maio esteve associada à redução do apetite por ativos brasileiros e ao avanço das ações de tecnologia nos Estados Unidos, segundo analistas ouvidos pelo Broadcast, do Grupo Estado. Dados da B3 mostram saída líquida de R$ 14,104 bilhões de investidores estrangeiros da bolsa doméstica no mês, após entrada de R$ 3,179 bilhões em abril. No acumulado de 2026, o fluxo externo ainda permanece positivo em R$ 42,44 bilhões.
Com a retirada de capital estrangeiro, o Ibovespa caiu 7,22% em maio, embora ainda registre alta de 7,86% no ano. No mercado internacional, o índice Nasdaq, concentrado em empresas de tecnologia, acumulou ganhos superiores a 8% no mês e renovou recordes, em movimento associado a novos anúncios de investimentos em inteligência artificial.
O estrategista-chefe da Avenue, William Castro Alves, afirmou ao Broadcast que os Estados Unidos voltaram a atrair capitais, o que contribui para fortalecer o dólar globalmente. Segundo ele, os fluxos para mercados emergentes passaram a se concentrar em países com ligação mais direta a setores relacionados à inteligência artificial, reduzindo o interesse relativo pela bolsa brasileira.
O gestor da AZ Quest, Eduardo Aun, avaliou que esse quadro pode reforçar a tese de maior atratividade dos ativos americanos, em ambiente de atividade resiliente nos Estados Unidos e postura mais conservadora do Federal Reserve em relação à inflação. Já os economistas Álvaro Frasson e Arthur Mota, do BTG Pactual, apontaram que parte do suporte recente ao real veio de um fluxo elevado para emergentes expostos a commodities e mais distantes de focos geopolíticos.
Para o setor agropecuário, o câmbio segue como variável central. A valorização do dólar pode elevar a receita em reais das exportações de produtos como soja, milho, carnes e café, mas também tende a encarecer insumos dolarizados, como fertilizantes, defensivos e máquinas. O efeito líquido depende do grau de exposição de cada cadeia ao mercado externo e aos custos importados.
O Bradesco avalia que, apesar da perda de força do movimento global de realocação de portfólio, o real ainda conta com suporte estrutural e projeta câmbio ao redor de R$ 5,00 no fim deste ano e do próximo.
No curto prazo, a trajetória do real deve continuar sensível ao fluxo para os Estados Unidos, ao comportamento do dólar global e aos preços internacionais de commodities e energia. Para produtores e agroindústrias, a referência técnica é acompanhar o câmbio em conjunto com custos de insumos e formação de preços de exportação, já que o material disponível não detalha impactos por cadeia produtiva específica.
O mercado internacional de milho encerrou o dia em queda, pressionado por fatores climáticos favoráveis ao desenvolvimento das lavouras nos Estados Unidos e por dados de exportação abaixo do esperado. Segundo a TF Agroeconômica, os contratos negociados na Bolsa de Chicago recuaram pelo quinto pregão consecutivo, mantendo o tom negativo observado nas últimas sessões.
No fechamento do dia, a cotação para julho em Chicago terminou em baixa de 1,62%, equivalente a 7,00 cents por bushel, negociada a US$ 424,50. O contrato para setembro também recuou, com perda de 1,70%, ou 7,50 cents por bushel, encerrando a US$ 432,75.
A principal pressão sobre os preços veio do clima nos Estados Unidos. As chuvas avançaram das Grandes Planícies Centrais em direção a Iowa, reforçando a percepção de condições favoráveis para as lavouras. Esse cenário reduziu o apetite comprador e manteve os futuros do cereal sob influência negativa na CBOT.
Outro ponto de atenção foi o desempenho das vendas semanais de exportação. Para a safra antiga, o volume somou 883,30 mil toneladas, ficando na extremidade inferior das expectativas do mercado. Já para a safra nova, as vendas alcançaram 243,70 mil toneladas. Apesar disso, no balanço diário, o USDA confirmou a venda de 115 mil toneladas da safra 2026/2027 para a Colômbia.
Na América do Sul, o avanço da colheita na Argentina também entrou no radar do mercado. A colheita comercial atingiu 40,6% da área, com produtividade média de 82,7 quintais por hectare. Com esse desempenho, a Bolsa de Buenos Aires manteve sua estimativa de produção em 64 milhões de toneladas.
Milhões de anos antes do surgimento dos seres humanos, os peixes da subordem Notothenioidei já haviam conquistado a Antártica. Hoje, eles formam o grupo de vertebrados mais abundante e diverso da região: são cerca de 155 espécies distribuídas em sete famílias. Você pode estar se perguntando como essa linhagem conseguiu atravessar tantas eras. Os cientistas também.
Até agora, sabe-se que, ao longo de sua história evolutiva, os chamados nototeníoides desenvolveram glicoproteínas anticongelantes capazes de impedir a formação de cristais de gelo no sangue e nos tecidos. Além disso, sem bexiga natatória, estrutura que ajuda peixes a controlar a flutuação, esses animais também adotaram estratégias para se manter em diferentes profundidades.
Mas a pesquisadora Mayara P. Neves, do Departamento de Zoologia da Universidade Federal do Paraná (UFPR); e colegas das universidades de Rice, Oklahoma, e do estado de Ohio, nos Estados Unidos, quiseram entender também o que a variedade do crânio desses animais poderia mostrar sobre essa capacidade evolutiva.
“O que nos motivou a olhar especificamente para o crânio foi a percepção de que a diversidade de formas cranianas nesses peixes é enorme, e que essa diversidade está diretamente ligada ao que eles comem e onde vivem. O crânio é a ferramenta de captura de alimento desses animais”, diz a cientista.
O resultado dessa investigação foi publicado no periódico científico Proceedings of the National Academy of Sciences of the United States of America, em outubro do ano passado.
Um quebra-cabeça chamado modularidade
Para compreender essa relação, os cientistas partiram do conceito de modularidade, um padrão de organização em que algumas estruturas do corpo apresentam relativa autonomia entre si e podem se transformar sem afetar significativamente as demais.
“Imagine o crânio como um conjunto de LEGO: algumas peças estão muito coladas umas às outras e, por isso, quando uma muda, as demais tendem a mudar juntas. Isso é a integração. Outras são mais independentes e conseguem se modificar sem arrastar as demais. Isso é a modularidade”, explica Neves.
Os seres humanos apresentam um exemplo clássico desse fenômeno. O crânio é dividido em módulos como o neurocrânio, que abriga e protege o cérebro, e o complexo facial, formado por estruturas como a mandíbula, o nariz e as maçãs do rosto. Ao longo da evolução dos hominídeos, o neurocrânio se expandiu em resposta ao aumento do cérebro, enquanto a face se tornou progressivamente menor. “Essa transformação só foi possível porque esses módulos possuem certo grau de independência”, afirma a pesquisadora.
O conceito moderno de modularidade ganhou força a partir da década de 1990, especialmente com os trabalhos do biólogo Günter Wagner. Nas últimas duas décadas, tornou-se um dos temas centrais da biologia evolutiva do desenvolvimento.
Hoje, entende-se que estruturas mais modulares tendem a apresentar maior flexibilidade evolutiva, permitindo que diferentes partes do organismo respondam de forma independente às pressões ambientais e favorecendo o surgimento de adaptações.
22 milhões de anos de evolução
Para reconstruir a história evolutiva desses peixes, com foco na modularidade craniana, pesquisadores analisaram o crânio de 172 espécies de peixes atuais. Utilizando microtomografia computadorizada, técnica que produz imagens tridimensionais de alta resolução, criaram modelos digitais detalhados dos ossos sem precisar danificá-los.
Em seguida, compararam matematicamente o formato desses crânios para identificar semelhanças e diferenças entre as espécies. Essas informações foram posicionadas em uma árvore evolutiva que indica quando cada linhagem surgiu, permitindo estimar como e em que velocidade a anatomia dos peixes mudou ao longo dos últimos 22 milhões de anos.
Os resultados mostraram que diferentes partes do crânio dos nototeníoides evoluíram com relativa independência umas das outras, atestando o papel da modularidade, que teria ajudado esses animais a se adaptarem rapidamente às transformações ambientais provocadas pelo resfriamento da Antártica.
Quando o clima remodelou os peixes da Antártica
Por meio desse estudo, foi possível traçar uma narrativa desse passado: há 22 milhões de anos, os nototeníoides teriam emergido de um ancestral comum, e mudanças no formato do crânio começaram a ocorrer em ondas ligadas a eventos climáticos. O maior deles foi o chamado Ótimo Climático do Mioceno, período de grande instabilidade climática global há 15 milhões de anos. “Foi quando detectamos as taxas de evolução do crânio mais aceleradas dentro do grupo”.
Mas, antes disso, por volta de 23 milhões de anos atrás, já havia sinais de uma primeira aceleração evolutiva, coincidindo com uma barreira oceânica que isolou a Antártida e transformou completamente o ecossistema, a formação da Corrente Circumpolar Antártica. Segundo Neves, com o resfriamento do oceano, muitas espécies de peixes que não conseguiram se adaptar foram extintas, e os nototeníoides ocuparam esses vazios ecológicos posteriormente.
“O crânio alongado dos nototeníoides parece estar associado a estratégias de alimentação em ambientes profundos, onde um formato mais hidrodinâmico favorece a eficiência de captura de presas”, diz.
Resta investigar agora os mecanismos genéticos e do desenvolvimento que produzem essa modularidade, como exatamente o ambiente seleciona por mais ou menos modularidade, e se esses peixes terão plasticidade evolutiva suficiente para resistir à emergência climática.
Nototeníoides podem ensinar sobre o futuro
Aprofundar o conhecimento sobre os nototeníoides é importante não apenas porque eles correspondem à maior parte da biomassa de peixes do Oceano Antártico, mas também por seu potencial adaptativo. “Estudar esse grupo é como ter um laboratório natural de evolução”, argumenta a cientista.
Além disso, pesquisadores lembram que os nototeníoides evoluíram em resposta a glaciações passadas, e agora enfrentam o processo inverso, o aquecimento do Oceano Antártico, o que precisa ser estudado a fundo.
“Nossa pesquisa mostra que a modularidade craniana confere flexibilidade evolutiva. Mas a velocidade das mudanças climáticas atuais é de magnitude maior do que as mudanças geológicas do passado. Entender os mecanismos que permitiram a esses peixes prosperar é também uma forma de avaliar suas chances, e as de tantos outros organismos, diante do futuro que estamos construindo”, conclui Neves.