{"id":39910,"date":"2026-08-19T09:48:20","date_gmt":"2026-08-19T13:48:20","guid":{"rendered":"https:\/\/agromt.news\/?p=39910"},"modified":"2026-08-19T09:48:20","modified_gmt":"2026-08-19T13:48:20","slug":"o-credito-fechou-a-porteira","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agromt.news\/?p=39910","title":{"rendered":"O cr\u00e9dito fechou a porteira"},"content":{"rendered":"<p> <br \/>\n<\/p>\n<div>\n<figure><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/agromt.news\/wp-content\/uploads\/2025\/01\/governo-regulamenta-transferencia-de-terras-de-bancos-e-empresas.jpeg\" alt=\"porteira fechada Valor Bruto da Produ\u00e7\u00e3o (VBP)\" \/><figcaption>Foto: Pedro Silvestre\/Canal Rural Mato Grosso<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O pedido de recupera\u00e7\u00e3o judicial das Casas Bahia, envolvendo d\u00edvidas de R$ 17,3 bilh\u00f5es, produziu um impacto que vai muito al\u00e9m do varejo. Ele tornou vis\u00edvel um problema que j\u00e1 avan\u00e7ava silenciosamente: empresas e produtores est\u00e3o encontrando dificuldades crescentes para pagar, renegociar ou simplesmente rolar suas d\u00edvidas.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00e3o se trata de um caso isolado. O Brasil j\u00e1 possui 9,1 milh\u00f5es de empresas inadimplentes, com aproximadamente R$ 230 bilh\u00f5es em <strong><a href=\"https:\/\/www.canalrural.com.br\/tag\/dividas\/\">d\u00edvidas <\/a><\/strong>atrasadas. Desde o segundo trimestre de 2023, o n\u00famero de empresas em recupera\u00e7\u00e3o judicial aumentou quase 66%.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A Casas Bahia \u00e9 apenas o retrato mais conhecido de uma crise de cr\u00e9dito muito mais ampla.<\/p>\n<ul class=\"wp-block-list\">\n<li><em>Receba no seu celular atualiza\u00e7\u00f5es em tempo real, enquetes interativas e tudo o que impacta o dia a dia no campo:<\/em><a href=\"https:\/\/whatsapp.com\/channel\/0029Va9VnZxGk1FplZjiW43k\"><em> <\/em><strong><em>entre agora no Whatsapp do Canal Rural!<\/em><\/strong><\/a><\/li>\n<\/ul>\n<h2 class=\"wp-block-heading\">O risco chegou aos bancos<\/h2>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quando a inadimpl\u00eancia aumenta, os bancos precisam elevar as provis\u00f5es para cobrir poss\u00edveis perdas. \u00c9 uma medida prudencial, mas que tem consequ\u00eancias: reduz a rentabilidade, aumenta a percep\u00e7\u00e3o de risco e torna as institui\u00e7\u00f5es mais cuidadosas na concess\u00e3o de novos empr\u00e9stimos.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os bancos passam a exigir mais garantias, reduzir prazos, aumentar os juros e selecionar com maior rigor quem ter\u00e1 acesso ao dinheiro.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00e3o estamos diante de uma crise banc\u00e1ria. O sistema financeiro brasileiro continua capitalizado e resiliente. O problema \u00e9 que a rea\u00e7\u00e3o defensiva dos bancos ocorre justamente quando empresas e produtores mais precisam de cr\u00e9dito.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Forma-se um c\u00edrculo preocupante: a inadimpl\u00eancia aumenta as provis\u00f5es; as provis\u00f5es reduzem a disposi\u00e7\u00e3o para emprestar; o cr\u00e9dito fica mais caro e escasso; e mais empresas encontram dificuldades para pagar suas d\u00edvidas.<\/p>\n<h2 class=\"wp-block-heading\">No campo, a crise j\u00e1 est\u00e1 instalada<\/h2>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O agroneg\u00f3cio \u00e9 um dos setores mais atingidos por essa deteriora\u00e7\u00e3o. No segundo trimestre de 2026, aproximadamente 1.265 empresas do setor estavam em recupera\u00e7\u00e3o judicial, crescimento de 66% em apenas doze meses.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A inadimpl\u00eancia da popula\u00e7\u00e3o rural chegou a 8,8% no primeiro trimestre. Entre os grandes propriet\u00e1rios, alcan\u00e7ou 9,9%. Al\u00e9m disso, o agroneg\u00f3cio encerrou 2025 com quase 2 mil pedidos de recupera\u00e7\u00e3o judicial, o maior volume da s\u00e9rie hist\u00f3rica da Serasa Experian.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os n\u00fameros desmontam uma ideia bastante difundida: a de que uma grande safra significa, necessariamente, prosperidade para o produtor.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Produ\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 renda. E o faturamento n\u00e3o \u00e9 lucro.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O produtor pode colher mais e, ainda assim, terminar o ciclo com menos dinheiro. Basta que os pre\u00e7os recebidos caiam, os custos permane\u00e7am elevados e os juros consumam a margem operacional.<\/p>\n<h2 class=\"wp-block-heading\">A lavoura n\u00e3o carrega apenas a d\u00edvida de um ano<\/h2>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Parte da press\u00e3o atual come\u00e7ou em safras anteriores. Eventos clim\u00e1ticos comprometeram a produ\u00e7\u00e3o, enquanto fertilizantes, defensivos, diesel, m\u00e1quinas e cr\u00e9dito permaneceram caros.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Sem seguro rural suficiente, muitos produtores financiaram a safra seguinte carregando o preju\u00edzo da anterior. A d\u00edvida n\u00e3o desapareceu: foi empurrada para a frente.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Agora, o produtor encontra pre\u00e7os internacionais pressionados, margens mais estreitas e institui\u00e7\u00f5es financeiras muito mais seletivas.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No campo, o cr\u00e9dito n\u00e3o serve apenas para ampliar a produ\u00e7\u00e3o. Ele financia o custeio, a compra de insumos e o plantio da pr\u00f3xima safra. Quando esse dinheiro falta, o problema deixa de ser apenas financeiro e passa a amea\u00e7ar a pr\u00f3pria capacidade produtiva.<\/p>\n<h2 class=\"wp-block-heading\">O petr\u00f3leo acrescenta uma nova press\u00e3o<\/h2>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A instabilidade no Oriente M\u00e9dio tornou o cen\u00e1rio ainda mais delicado. A alta do petr\u00f3leo pressiona combust\u00edveis, fretes, log\u00edstica e diversos componentes utilizados na produ\u00e7\u00e3o de defensivos e outros insumos.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No caso dos fertilizantes, a situa\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m depende do g\u00e1s natural, do custo de transporte e da seguran\u00e7a das rotas internacionais.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Portanto, mesmo que o produtor tenha efici\u00eancia dentro da porteira, permanece exposto a decis\u00f5es geopol\u00edticas tomadas a milhares de quil\u00f4metros de sua propriedade.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00e3o h\u00e1, neste momento, uma perspectiva clara de normaliza\u00e7\u00e3o r\u00e1pida no Oriente M\u00e9dio. Isso significa que energia, infla\u00e7\u00e3o e juros devem continuar no centro das preocupa\u00e7\u00f5es mundiais.<\/p>\n<h2 class=\"wp-block-heading\">O mundo entra na prova do refinanciamento<\/h2>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A crise do cr\u00e9dito n\u00e3o \u00e9 apenas brasileira. Segundo a OCDE, governos e empresas dever\u00e3o captar cerca de&nbsp;<strong>US$ 29 trilh\u00f5es no mercado de t\u00edtulos em 2026<\/strong>, o dobro do volume registrado dez anos atr\u00e1s.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 importante fazer a distin\u00e7\u00e3o: nem todo esse montante representa d\u00edvida vencendo. Mas, no caso dos governos dos pa\u00edses da OCDE, aproximadamente 78% das emiss\u00f5es ser\u00e3o utilizadas para refinanciar d\u00e9bitos existentes.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O mundo est\u00e1 entrando em uma gigantesca opera\u00e7\u00e3o de rolagem de d\u00edvida justamente quando os juros de longo prazo voltam a subir.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nos Estados Unidos, o rendimento dos t\u00edtulos de 30 anos atingiu o maior n\u00edvel em quase duas d\u00e9cadas. O mercado est\u00e1 exigindo uma remunera\u00e7\u00e3o maior diante da infla\u00e7\u00e3o, do petr\u00f3leo, dos d\u00e9ficits p\u00fablicos e do crescimento do endividamento.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Isso n\u00e3o significa que o Federal Reserve obrigatoriamente elevar\u00e1 sua taxa b\u00e1sica. Significa, por\u00e9m, que o custo do dinheiro de longo prazo j\u00e1 est\u00e1 mudando.<\/p>\n<h2 class=\"wp-block-heading\">O dinheiro procura seguran\u00e7a<\/h2>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quando os t\u00edtulos americanos oferecem rendimentos maiores, parte do capital internacional deixa os mercados considerados mais arriscados e procura a seguran\u00e7a dos Estados Unidos.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Por isso, n\u00e3o se pode atribuir a sa\u00edda dos estrangeiros da Bolsa brasileira apenas \u00e0 elei\u00e7\u00e3o. A inseguran\u00e7a pol\u00edtica, o desequil\u00edbrio fiscal e as d\u00favidas sobre o pr\u00f3ximo governo pesam. Mas existe tamb\u00e9m um movimento global de precifica\u00e7\u00e3o do risco.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">At\u00e9 13 de agosto, os investidores estrangeiros j\u00e1 haviam retirado R$ 15,63 bilh\u00f5es da Bolsa brasileira.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para um pa\u00eds endividado, com juros elevados e baixa previsibilidade fiscal, a disputa internacional pelo dinheiro torna-se ainda mais dif\u00edcil.<\/p>\n<h2 class=\"wp-block-heading\">A boa safra pode esconder a crise<\/h2>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O pedido de recupera\u00e7\u00e3o judicial das Casas Bahia \u00e9 um alerta. Mostra o que pode acontecer quando uma empresa muito endividada enfrenta juros altos, perda de receita e dificuldade para refinanciar suas obriga\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No campo, essa combina\u00e7\u00e3o j\u00e1 est\u00e1 presente.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O produtor enfrenta o clima, pre\u00e7os internacionais mais baixos, custos elevados, petr\u00f3leo pressionado e cr\u00e9dito cada vez mais seletivo. Mesmo quem ainda paga suas contas percebe que o banco est\u00e1 mais rigoroso, exige mais garantias e oferece condi\u00e7\u00f5es menos favor\u00e1veis.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O grande risco \u00e9 avaliarmos o agroneg\u00f3cio apenas pelo tamanho da safra. Podemos colher um volume recorde e, ao mesmo tempo, assistir ao avan\u00e7o da inadimpl\u00eancia, das recupera\u00e7\u00f5es judiciais e da descapitaliza\u00e7\u00e3o no campo.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A pr\u00f3xima crise n\u00e3o precisa come\u00e7ar com a falta de produ\u00e7\u00e3o. Ela pode come\u00e7ar com a falta de cr\u00e9dito para produzir.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Boa safra n\u00e3o paga d\u00edvida quando o pre\u00e7o cai, o custo sobe e o cr\u00e9dito fecha a porteira.<\/strong><\/p>\n<div class=\"wp-block-media-text is-stacked-on-mobile\">\n<figure class=\"wp-block-media-text__media\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"683\" height=\"1024\" src=\"https:\/\/agromt.news\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/1773321488_473_Quando-ate-os-gigantes-renegociam-Raizen-GPA-e-o-peso.jpg\" alt=\"Miguel Daoud\" class=\"wp-image-4095706 size-full\" \/><\/figure>\n<div class=\"wp-block-media-text__content\">\n<p class=\"has-text-align-center wp-block-paragraph\">*<em><strong>Miguel Daoud<\/strong>&nbsp;\u00e9 comentarista de Economia e Pol\u00edtica&nbsp;do Canal Rural<\/em><\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\n<p><\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\" \/>\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>O&nbsp;<strong>Canal Rural<\/strong>&nbsp;n\u00e3o se responsabiliza pelas opini\u00f5es e conceitos emitidos nos textos desta sess\u00e3o, sendo os conte\u00fados de inteira responsabilidade de seus autores. A empresa se reserva o direito de fazer ajustes no texto para adequa\u00e7\u00e3o \u00e0s normas de publica\u00e7\u00e3o.<\/em><\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\n<p>O post <a href=\"https:\/\/www.canalrural.com.br\/opiniao-noticias\/o-credito-fechou-a-porteira\/\">O cr\u00e9dito fechou a porteira<\/a> apareceu primeiro em <a href=\"https:\/\/www.canalrural.com.br\">Canal Rural<\/a>.<\/p>\n<p><br \/>\n<br \/><a href=\"https:\/\/www.canalrural.com.br\/opiniao-noticias\/o-credito-fechou-a-porteira\/\">Source link <\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Foto: Pedro Silvestre\/Canal Rural Mato Grosso O pedido de recupera\u00e7\u00e3o judicial das Casas Bahia, envolvendo d\u00edvidas de R$ 17,3 bilh\u00f5es,<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":39911,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"_uf_show_specific_survey":0,"_uf_disable_surveys":false,"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-39910","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-news"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agromt.news\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/39910"}],"collection":[{"href":"https:\/\/agromt.news\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agromt.news\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agromt.news\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agromt.news\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=39910"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agromt.news\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/39910\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agromt.news\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/39911"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agromt.news\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=39910"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agromt.news\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=39910"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agromt.news\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=39910"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}