{"id":39646,"date":"2026-08-15T12:56:05","date_gmt":"2026-08-15T16:56:05","guid":{"rendered":"https:\/\/agromt.news\/?p=39646"},"modified":"2026-08-15T12:56:05","modified_gmt":"2026-08-15T16:56:05","slug":"a-guerra-no-mar-negro-pode-chegar-a-mesa-do-brasileiro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agromt.news\/?p=39646","title":{"rendered":"A guerra no Mar Negro pode chegar \u00e0 mesa do brasileiro"},"content":{"rendered":"<p> <br \/>\n<\/p>\n<div>\n<figure><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/agromt.news\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/Guerra-sem-freio-a-fatura-esta-chegando-para-os-paises.jpg\" alt=\"exporta\u00e7\u00f5es, ucr\u00e2nia, guerra, r\u00fassia\" \/><figcaption>Foto: Reprodu\u00e7\u00e3o\/Redes Sociais<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nas \u00faltimas semanas, ataques alcan\u00e7aram portos, terminais de gr\u00e3os e embarca\u00e7\u00f5es no Mar Negro. A Ucr\u00e2nia atingiu estruturas russas em Novorossiysk, importante sa\u00edda de trigo. A R\u00fassia atacou o porto ucraniano de Izmail, no rio Dan\u00fabio, utilizado como rota alternativa para as exporta\u00e7\u00f5es agr\u00edcolas.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O mercado reagiu rapidamente. Desde que os ataques se intensificaram, em meados de julho, o trigo chegou a acumular valoriza\u00e7\u00e3o pr\u00f3xima de 10% em Chicago, passando de cerca de US$ 6,45 para US$ 7,09 por bushel. Somente ap\u00f3s o ataque de 12 de agosto ao terminal de Novorossiysk, o cereal voltou a subir aproximadamente 3% em um \u00fanico preg\u00e3o. O milho acompanhou o movimento.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mas o que uma guerra t\u00e3o distante tem a ver com o pre\u00e7o do p\u00e3o, da carne e dos ovos no Brasil? A resposta come\u00e7a no mapa.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">R\u00fassia e Ucr\u00e2nia est\u00e3o entre os grandes participantes do com\u00e9rcio mundial de gr\u00e3os. Qualquer amea\u00e7a aos embarques muda imediatamente as expectativas sobre a oferta.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O mercado n\u00e3o espera o produto faltar. Basta aumentar o risco de interrup\u00e7\u00e3o. Os compradores procuram outros fornecedores, os fretes e seguros ficam mais caros e as cota\u00e7\u00f5es passam a incorporar um pr\u00eamio de guerra.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A preocupa\u00e7\u00e3o aumentou porque a R\u00fassia rejeitou a possibilidade de uma tr\u00e9gua espec\u00edfica para a navega\u00e7\u00e3o no Mar Negro. A Ucr\u00e2nia teria proposto a suspens\u00e3o dos ataques contra navios civis, mas Moscou afirmou n\u00e3o ter recebido formalmente a iniciativa. Sem acordo, o risco permanece.<\/p>\n<h2 id=\"h-o-trigo-e-a-maior-vulnerabilidade-brasileira\" class=\"wp-block-heading\">O trigo \u00e9 a maior vulnerabilidade brasileira<\/h2>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O Brasil \u00e9 uma pot\u00eancia agr\u00edcola, mas ainda depende do trigo importado. A Argentina \u00e9 nosso principal fornecedor, por\u00e9m o pre\u00e7o que chega aos moinhos acompanha as cota\u00e7\u00f5es internacionais, o d\u00f3lar, o frete e a disponibilidade do produto. E existe um agravante: teremos uma safra menor. <\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A produ\u00e7\u00e3o brasileira est\u00e1 estimada em aproximadamente 6,3 milh\u00f5es de toneladas, queda pr\u00f3xima de 19% em rela\u00e7\u00e3o ao ciclo anterior. A \u00e1rea plantada deve recuar cerca de 12,5%, e a produtividade tamb\u00e9m dever\u00e1 diminuir.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O Brasil, portanto, entra nesse per\u00edodo de instabilidade com menos trigo dentro de casa e maior necessidade de importa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Se o cereal sobe no exterior e o real perde valor, a press\u00e3o chega aos moinhos. Depois, alcan\u00e7a farinha, p\u00e3o, massas, biscoitos e outros produtos presentes diariamente na mesa das fam\u00edlias.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 assim que uma explos\u00e3o em um porto distante pode aparecer, semanas depois, no pre\u00e7o do caf\u00e9 da manh\u00e3.<\/p>\n<h2 id=\"h-por-que-o-milho-tambem-sobe\" class=\"wp-block-heading\">Por que o milho tamb\u00e9m sobe?<\/h2>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No milho, o efeito \u00e9 menos direto, mas igualmente importante. Quando o trigo fica caro e escasso, parte dos compradores pode utilizar o milho como substituto na alimenta\u00e7\u00e3o animal, aumentando a procura pelo cereal.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No Brasil, o milho abastece aves, su\u00ednos, leite e ovos. Tamb\u00e9m ganhou espa\u00e7o na produ\u00e7\u00e3o de etanol. Diferentes setores, portanto, passaram a disputar o mesmo produto.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Uma valoriza\u00e7\u00e3o prolongada pode encarecer as ra\u00e7\u00f5es, reduzir as margens dos criadores e, mais adiante, pressionar os pre\u00e7os das prote\u00ednas.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ao mesmo tempo, o Brasil \u00e9 grande exportador de milho e pode conquistar mercados diante das dificuldades enfrentadas por R\u00fassia e Ucr\u00e2nia. Para quem vende, pode surgir uma oportunidade. Para quem utiliza o gr\u00e3o como mat\u00e9ria-prima, aparece um custo maior.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Esse \u00e9 um dos paradoxos do agroneg\u00f3cio: a mesma alta que beneficia o exportador pode prejudicar o produtor de prote\u00edna animal e pressionar o consumidor.<\/p>\n<h2 id=\"h-o-risco-nao-termina-nos-graos\" class=\"wp-block-heading\">O risco n\u00e3o termina nos gr\u00e3os<\/h2>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A guerra tamb\u00e9m encarece transporte, seguro mar\u00edtimo, energia e combust\u00edveis.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Petr\u00f3leo mais caro pressiona o diesel, aumentando o custo de plantar, colher e transportar. A energia mais cara tamb\u00e9m pode alcan\u00e7ar os fertilizantes, especialmente os dependentes do g\u00e1s natural.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Forma-se uma sequ\u00eancia perigosa: guerra, petr\u00f3leo, frete, fertilizantes, gr\u00e3os, ra\u00e7\u00e3o e alimentos.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nem todos esses aumentos chegam imediatamente ao consumidor. Mas, quanto mais tempo durar a instabilidade, maior ser\u00e1 o risco de contamina\u00e7\u00e3o dos pre\u00e7os.<\/p>\n<h2 id=\"h-dolar-e-capital-estrangeiro\" class=\"wp-block-heading\">D\u00f3lar e capital estrangeiro<\/h2>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O Brasil tamb\u00e9m enfrenta uma mudan\u00e7a no comportamento dos investidores estrangeiros.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os valores est\u00e3o expressos em reais, e n\u00e3o em d\u00f3lares. At\u00e9 abril, os estrangeiros acumulavam entrada l\u00edquida de aproximadamente\u00a0R$ 56,5 bilh\u00f5es\u00a0na Bolsa. Depois, o movimento mudou: houve retirada de cerca de\u00a0R$ 14,9 bilh\u00f5es em maio\u00a0e de aproximadamente\u00a0R$ 13,6 bilh\u00f5es em agosto.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00e3o foi poss\u00edvel confirmar, pela mesma metodologia, uma sa\u00edda acumulada exata de R$ 32 bilh\u00f5es. Mas a invers\u00e3o do fluxo est\u00e1 clara.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Parte desse movimento pode ser realiza\u00e7\u00e3o de lucros. Ainda assim, mostra maior cautela diante das tens\u00f5es internacionais e das incertezas fiscais e pol\u00edticas brasileiras.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quando o capital sai, o d\u00f3lar tende a subir. E d\u00f3lar mais alto encarece trigo importado, fertilizantes, defensivos, combust\u00edveis e equipamentos.<\/p>\n<h2 id=\"h-a-guerra-pode-dificultar-a-queda-dos-juros\" class=\"wp-block-heading\">A guerra pode dificultar a queda dos juros<\/h2>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O Banco Central n\u00e3o reage a uma alta isolada do trigo ou do milho. O problema aparece quando v\u00e1rios pre\u00e7os come\u00e7am a subir simultaneamente.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Se petr\u00f3leo, d\u00f3lar, fretes, fertilizantes e alimentos avan\u00e7arem de maneira persistente, as expectativas de infla\u00e7\u00e3o pioram. Nesse ambiente, reduzir os juros torna-se mais dif\u00edcil.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O brasileiro pode, ent\u00e3o, sentir o conflito duas vezes: primeiro, no supermercado e no posto de combust\u00edvel; depois, na perman\u00eancia do cr\u00e9dito caro.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ainda n\u00e3o existe uma crise mundial de abastecimento. H\u00e1 estoques, fornecedores alternativos e outras rotas comerciais. Mas o sinal de alerta est\u00e1 aceso.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Se os ataques continuarem, aquilo que hoje \u00e9 um pr\u00eamio de risco poder\u00e1 se transformar em falta efetiva de produto.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A li\u00e7\u00e3o \u00e9 clara: ser um dos maiores produtores agr\u00edcolas do mundo n\u00e3o torna o Brasil imune \u00e0s guerras.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Exportamos milho, mas importamos trigo. Produzimos alimentos, mas dependemos de fertilizantes estrangeiros, diesel, cr\u00e9dito, c\u00e2mbio e log\u00edstica internacional.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No mundo atual, a guerra n\u00e3o precisa chegar ao territ\u00f3rio brasileiro para atingir o produtor e o consumidor. Basta alcan\u00e7ar os portos por onde passa a comida do mundo.<\/p>\n<div class=\"wp-block-media-text is-stacked-on-mobile\">\n<figure class=\"wp-block-media-text__media\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"683\" height=\"1024\" src=\"https:\/\/agromt.news\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/1766405079_938_Confusao-a-vista-petroleo-venezuelano-apreendido-pelos-EUA-pode-pertencer.jpg\" alt=\"Miguel Daoud\" class=\"wp-image-4095706 size-full\" \/><\/figure>\n<div class=\"wp-block-media-text__content\">\n<p class=\"has-text-align-center wp-block-paragraph\">*<em><strong>Miguel Daoud<\/strong>&nbsp;\u00e9 comentarista de Economia e Pol\u00edtica&nbsp;do Canal Rural<\/em><\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\n<p><\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\" \/>\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>O&nbsp;<strong>Canal Rural<\/strong>&nbsp;n\u00e3o se responsabiliza pelas opini\u00f5es e conceitos emitidos nos textos desta sess\u00e3o, sendo os conte\u00fados de inteira responsabilidade de seus autores. A empresa se reserva o direito de fazer ajustes no texto para adequa\u00e7\u00e3o \u00e0s normas de publica\u00e7\u00e3o.<\/em><\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\n<p>O post <a href=\"https:\/\/www.canalrural.com.br\/opiniao-noticias\/a-guerra-no-mar-negro-pode-chegar-a-mesa-do-brasileiro\/\">A guerra no Mar Negro pode chegar \u00e0 mesa do brasileiro<\/a> apareceu primeiro em <a href=\"https:\/\/www.canalrural.com.br\">Canal Rural<\/a>.<\/p>\n<p><br \/>\n<br \/><a href=\"https:\/\/www.canalrural.com.br\/opiniao-noticias\/a-guerra-no-mar-negro-pode-chegar-a-mesa-do-brasileiro\/\">Source link <\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Foto: Reprodu\u00e7\u00e3o\/Redes Sociais Nas \u00faltimas semanas, ataques alcan\u00e7aram portos, terminais de gr\u00e3os e embarca\u00e7\u00f5es no Mar Negro. 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