{"id":37137,"date":"2026-07-16T09:14:51","date_gmt":"2026-07-16T13:14:51","guid":{"rendered":"https:\/\/agromt.news\/?p=37137"},"modified":"2026-07-16T09:14:51","modified_gmt":"2026-07-16T13:14:51","slug":"o-brasil-tinha-margem-para-negociar-com-os-estados-unidos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agromt.news\/?p=37137","title":{"rendered":"O Brasil tinha margem para negociar com os Estados Unidos?"},"content":{"rendered":"<p> <br \/>\n<\/p>\n<div>\n<figure><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/agromt.news\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/CNA-reage-a-investigacao-dos-EUA-e-contesta-acusacoes-contra.png\" alt=\"bandeiras dos EUA e do Brasil\" \/><figcaption>Imagem gerada por IA para o Canal Rural<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">As <a href=\"https:\/\/www.canalrural.com.br\/agricultura\/agronegocio\/do-cafe-ao-etanol-o-mapa-dos-produtos-brasileiros-afetados-pela-tarifa-de-25-dos-eua\/\">tarifas impostas <\/a>pelos Estados Unidos aos produtos brasileiros reacenderam o debate sobre a atua\u00e7\u00e3o do Brasil nas negocia\u00e7\u00f5es comerciais. Para parte da imprensa e de analistas, o governo brasileiro teria sido pouco atuante ou perdido oportunidades para evitar o agravamento das barreiras.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Essa interpreta\u00e7\u00e3o, por\u00e9m, desconsidera um fator decisivo: diferentemente de outras economias, o Brasil chegou \u00e0 disputa em posi\u00e7\u00e3o de d\u00e9ficit comercial e com reduzida margem de barganha.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Antes de discutir se o pa\u00eds negociou pouco ou muito, \u00e9 preciso responder a uma pergunta anterior: havia, de fato, espa\u00e7o para uma negocia\u00e7\u00e3o capaz de alterar esse cen\u00e1rio?<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A resposta depende menos da habilidade diplom\u00e1tica e mais da posi\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica ocupada pelo Brasil na rela\u00e7\u00e3o bilateral com os Estados Unidos.<\/p>\n<ul class=\"wp-block-list\">\n<li><em>Veja em primeira m\u00e3o tudo sobre agricultura, pecu\u00e1ria, economia e previs\u00e3o do tempo: <\/em><a href=\"https:\/\/news.google.com\/publications\/CAAqBwgKMPKZlQswq_mqAw?hl=pt-BR&amp;gl=BR&amp;ceid=BR%3Apt-419\"><em>siga o Canal Rural no Google News!<\/em><\/a><\/li>\n<\/ul>\n<h3 id=\"h-uma-disputa-que-deixou-de-ser-apenas-comercial\" class=\"wp-block-heading\">Uma disputa que deixou de ser apenas comercial<\/h3>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ao contr\u00e1rio de Uni\u00e3o Europeia, Jap\u00e3o e Coreia do Sul, o Brasil entrou nessa disputa em uma condi\u00e7\u00e3o estruturalmente menos favor\u00e1vel. Al\u00e9m disso, o conflito deixou de ser apenas comercial e passou a envolver interesses pol\u00edticos, tecnol\u00f3gicos e geopol\u00edticos.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O impasse come\u00e7ou a ganhar forma em 2025, quando o governo Donald Trump adotou uma pol\u00edtica tarif\u00e1ria mais agressiva. Inicialmente, o Brasil permaneceu na menor faixa de tributa\u00e7\u00e3o. Meses depois, por\u00e9m, Washington elevou para 50% as tarifas sobre diversos produtos brasileiros e abriu uma investiga\u00e7\u00e3o com base na Se\u00e7\u00e3o 301 da Lei de Com\u00e9rcio de 1974.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A partir desse momento, a discuss\u00e3o deixou de tratar apenas de tarifas. Passou a incluir temas como com\u00e9rcio digital, propriedade intelectual, acesso ao mercado de etanol, quest\u00f5es ambientais e sistema de pagamentos, ampliando significativamente a complexidade das negocia\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Representantes brasileiros participaram de reuni\u00f5es t\u00e9cnicas e diplom\u00e1ticas ao longo desse processo, mas surgiram cr\u00edticas de que o pa\u00eds teria negociado pouco.<\/p>\n<h3 id=\"h-o-deficit-reduzia-a-margem-de-negociacao\" class=\"wp-block-heading\">O d\u00e9ficit reduzia a margem de negocia\u00e7\u00e3o<\/h3>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O problema \u00e9 que essa avalia\u00e7\u00e3o costuma ignorar um dado central: o com\u00e9rcio bilateral \u00e9 deficit\u00e1rio para o Brasil.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Enquanto pa\u00edses com grandes super\u00e1vits comerciais podem oferecer concess\u00f5es reduzindo parte desse excedente, economias deficit\u00e1rias disp\u00f5em de muito menos espa\u00e7o para negociar. Essa diferen\u00e7a ajuda a explicar por que comparar o Brasil com Uni\u00e3o Europeia, Jap\u00e3o ou Coreia do Sul leva a conclus\u00f5es equivocadas.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Esses pa\u00edses chegaram \u00e0s negocia\u00e7\u00f5es em posi\u00e7\u00e3o muito mais confort\u00e1vel. A Uni\u00e3o Europeia utilizou seu super\u00e1vit para ampliar compras de g\u00e1s natural americano, aumentar investimentos e flexibilizar regras regulat\u00f3rias. Jap\u00e3o e Coreia do Sul seguiram caminho semelhante, oferecendo novos investimentos e abertura de mercados em setores estrat\u00e9gicos.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A China, por sua vez, possui um enorme super\u00e1vit comercial, domina cadeias globais de minerais cr\u00edticos e exerce influ\u00eancia sobre setores essenciais da economia mundial. J\u00e1 o Reino Unido, embora registre d\u00e9ficit comercial com os Estados Unidos, disp\u00f5e de ativos estrat\u00e9gicos nas \u00e1reas financeira, tecnol\u00f3gica e de defesa que ampliam seu poder de negocia\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O Brasil negociava em outra realidade. Sua pauta exportadora permanece concentrada em produtos agropecu\u00e1rios, minerais e bens industriais de m\u00e9dia intensidade tecnol\u00f3gica. Al\u00e9m disso, o pa\u00eds j\u00e1 apresentava d\u00e9ficit crescente na balan\u00e7a bilateral, reduzindo ainda mais sua margem para oferecer concess\u00f5es sem ampliar esse desequil\u00edbrio.<\/p>\n<h3 id=\"h-os-temas-em-jogo-iam-alem-das-tarifas\" class=\"wp-block-heading\">Os temas em jogo iam al\u00e9m das tarifas<\/h3>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Outro fator pouco observado \u00e9 que a investiga\u00e7\u00e3o da Se\u00e7\u00e3o 301 extrapolou a discuss\u00e3o sobre tarifas. Os Estados Unidos passaram a questionar temas ligados ao ambiente digital, ao Pix, \u00e0 propriedade intelectual, ao acesso do etanol americano ao mercado brasileiro, ao combate ao desmatamento ilegal e \u00e0s investiga\u00e7\u00f5es sobre trabalho for\u00e7ado.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Cada um desses temas envolve decis\u00f5es permanentes de pol\u00edtica p\u00fablica e soberania regulat\u00f3ria. N\u00e3o se tratava apenas de reduzir impostos de importa\u00e7\u00e3o, mas de discutir regras que afetam o sistema financeiro, a pol\u00edtica ambiental, a legisla\u00e7\u00e3o de propriedade intelectual e setores estrat\u00e9gicos da economia brasileira.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nesse contexto, qualquer concess\u00e3o deixava de ser exclusivamente comercial e passava a produzir efeitos internos de longo prazo, tornando a negocia\u00e7\u00e3o muito mais complexa.<\/p>\n<h3 id=\"h-retaliar-resolveria-o-problema\" class=\"wp-block-heading\">Retaliar resolveria o problema?<\/h3>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Tamb\u00e9m houve quem defendesse uma retalia\u00e7\u00e3o brasileira \u00e0s medidas americanas. Politicamente, essa posi\u00e7\u00e3o encontra apoiadores. Economicamente, por\u00e9m, seus resultados seriam limitados.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">As tarifas passaram a ser fundamentadas na Se\u00e7\u00e3o 301, instrumento jur\u00eddico consolidado na legisla\u00e7\u00e3o americana. Uma resposta brasileira dificilmente encerraria o conflito e poderia ampliar uma escalada em uma rela\u00e7\u00e3o comercial na qual Washington disp\u00f5e de instrumentos significativamente mais fortes.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Al\u00e9m disso, os Estados Unidos preservaram diversos produtos considerados estrat\u00e9gicos para sua pr\u00f3pria economia, demonstrando que o objetivo n\u00e3o era interromper completamente o com\u00e9rcio bilateral, mas aumentar a press\u00e3o sobre setores espec\u00edficos.<\/p>\n<h3 id=\"h-negociar-e-diferente-de-ter-poder-de-negociacao\" class=\"wp-block-heading\">Negociar \u00e9 diferente de ter poder de negocia\u00e7\u00e3o<\/h3>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Todo esse epis\u00f3dio evidencia uma diferen\u00e7a importante entre negociar e possuir poder de negocia\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A diplomacia continua sendo essencial, mas seus resultados dependem, antes de tudo, da posi\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica de cada pa\u00eds. Na\u00e7\u00f5es que acumulam grandes super\u00e1vits, lideram setores tecnol\u00f3gicos estrat\u00e9gicos ou exercem influ\u00eancia sobre cadeias globais de produ\u00e7\u00e3o chegam \u00e0s negocia\u00e7\u00f5es em condi\u00e7\u00f5es muito diferentes das enfrentadas por economias deficit\u00e1rias.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Por isso, a principal quest\u00e3o talvez n\u00e3o seja se o Brasil negociou pouco ou muito, mas se o pa\u00eds vem construindo, ao longo das \u00faltimas d\u00e9cadas, uma economia suficientemente competitiva, inovadora e estrat\u00e9gica para negociar em condi\u00e7\u00f5es de maior equil\u00edbrio com as grandes pot\u00eancias.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O com\u00e9rcio internacional tornou-se cada vez mais um instrumento de pol\u00edtica externa, seguran\u00e7a econ\u00f4mica e competi\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica. Tarifas passaram a ser apenas uma das ferramentas desse processo.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A diplomacia continuar\u00e1 sendo indispens\u00e1vel. Mas ela produz resultados mais consistentes quando \u00e9 sustentada por produtividade, competitividade, inova\u00e7\u00e3o e relev\u00e2ncia econ\u00f4mica.<\/p>\n<div class=\"wp-block-media-text is-stacked-on-mobile\">\n<figure class=\"wp-block-media-text__media\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"683\" height=\"1024\" src=\"https:\/\/agromt.news\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/1766405079_938_Confusao-a-vista-petroleo-venezuelano-apreendido-pelos-EUA-pode-pertencer.jpg\" alt=\"Miguel Daoud\" class=\"wp-image-4095706 size-full\" \/><\/figure>\n<div class=\"wp-block-media-text__content\">\n<p class=\"has-text-align-center wp-block-paragraph\">*<em><strong>Miguel Daoud<\/strong>&nbsp;\u00e9 comentarista de Economia e Pol\u00edtica&nbsp;do Canal Rural<\/em><\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\n<p><\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\" \/>\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>O&nbsp;<strong>Canal Rural<\/strong>&nbsp;n\u00e3o se responsabiliza pelas opini\u00f5es e conceitos emitidos nos textos desta sess\u00e3o, sendo os conte\u00fados de inteira responsabilidade de seus autores. A empresa se reserva o direito de fazer ajustes no texto para adequa\u00e7\u00e3o \u00e0s normas de publica\u00e7\u00e3o.<\/em><\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\n<p>O post <a href=\"https:\/\/www.canalrural.com.br\/opiniao-noticias\/o-brasil-tinha-margem-para-negociar-com-os-estados-unidos\/\">O Brasil tinha margem para negociar com os Estados Unidos?<\/a> apareceu primeiro em <a href=\"https:\/\/www.canalrural.com.br\">Canal Rural<\/a>.<\/p>\n<p><br \/>\n<br \/><a href=\"https:\/\/www.canalrural.com.br\/opiniao-noticias\/o-brasil-tinha-margem-para-negociar-com-os-estados-unidos\/\">Source link <\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Imagem gerada por IA para o Canal Rural As tarifas impostas pelos Estados Unidos aos produtos brasileiros reacenderam o debate<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":29422,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"_uf_show_specific_survey":0,"_uf_disable_surveys":false,"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-37137","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-news"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agromt.news\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/37137"}],"collection":[{"href":"https:\/\/agromt.news\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agromt.news\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agromt.news\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agromt.news\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=37137"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agromt.news\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/37137\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agromt.news\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/29422"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agromt.news\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=37137"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agromt.news\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=37137"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agromt.news\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=37137"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}