{"id":25198,"date":"2025-12-04T17:31:48","date_gmt":"2025-12-04T21:31:48","guid":{"rendered":"https:\/\/agromt.news\/?p=25198"},"modified":"2025-12-04T17:31:48","modified_gmt":"2025-12-04T21:31:48","slug":"o-ano-em-que-o-mercado-do-feijao-parou-de-falar-sozinho","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agromt.news\/?p=25198","title":{"rendered":"O ano em que o mercado do feij\u00e3o parou de falar sozinho"},"content":{"rendered":"<p> <br \/>\n<\/p>\n<div>\n<p>H\u00e1 anos o mercado do feij\u00e3o vive em sil\u00eancio operacional: neg\u00f3cios pingados, preg\u00f5es esvaziados, compradores seletivos, produtores desconfiados. Mas 2025 fez esse sil\u00eancio gritar. Nada sintetiza melhor o atual momento do setor do que o paradoxo que se repete diariamente nas origens e na Bolsa: quando h\u00e1 pre\u00e7o, n\u00e3o h\u00e1 comprador; quando h\u00e1 comprador, n\u00e3o h\u00e1 feij\u00e3o. <\/p>\n<p>O feij\u00e3o-carioca entra dia ap\u00f3s dia em preg\u00f5es com 4 mil a 6 mil sacas ofertadas na Zona Cerealista de S\u00e3o Paulo, volume irris\u00f3rio para in\u00edcio de m\u00eas. Mesmo assim, com t\u00e3o pouca oferta, os neg\u00f3cios n\u00e3o fluem. Os padr\u00f5es comerciais (7,5 e 8) seguem num labirinto econ\u00f4mico peculiar: valem entre R$ 205 e R$ 225\/sc CIF SP, mas n\u00e3o fecham no FOB, porque a origem opera mais firme. O varejo e o atacado pedem pre\u00e7o baixo, a origem n\u00e3o entrega, o intermedi\u00e1rio desiste e a cadeia trava. O resultado \u00e9 um mercado nominal, onde os valores existem, mas a realidade operacional n\u00e3o acompanha. <\/p>\n<p>Nos padr\u00f5es superiores (8,5, 9 e 9,5), o paradoxo se repete: qualidade existe, pre\u00e7o at\u00e9 se sustenta, mas a procura \u00e9 m\u00ednima. Lotes premium seguem encalhados, enquanto o mercado corre atr\u00e1s apenas do \u201cm\u00ednimo aceit\u00e1vel\u201d para atender um varejo retra\u00eddo, que compra no limite da reposi\u00e7\u00e3o. <\/p>\n<p>Do outro lado da mesa, o feij\u00e3o-preto enfrenta em 2025 um cen\u00e1rio quase dist\u00f3pico: escoamento extremamente lento, pre\u00e7os deprimidos, estoques elevados e um consumidor que simplesmente n\u00e3o responde. A liquidez \u00e9 t\u00e3o baixa que muitas cota\u00e7\u00f5es j\u00e1 n\u00e3o cobrem sequer o m\u00ednimo oficial (R$ 152,91 por saca de 60 kg). Um produto barato demais, neste caso, \u00e9 sintoma de um setor caro demais para sobreviver. <\/p>\n<h2 class=\"wp-block-heading\" id=\"h-o-choque-de-realidade-quando-a-demanda-artificial-acabou\">O choque de realidade: quando a demanda artificial acabou <\/h2>\n<p>O ponto central da crise atual est\u00e1 al\u00e9m das madrugadas. O mercado de feij\u00e3o \u2014 e, por associa\u00e7\u00e3o, o de <strong><a href=\"http:\/\/www.canalrural.com.br\/tag\/arroz\/\">arroz<\/a><\/strong>, dupla que vem deixando de ser a base da gastronomia brasileira \u2014 vive hoje um severo choque de realidade, provocado pelo desequil\u00edbrio entre alta capacidade produtiprodutiva e uma demanda org\u00e2nica cronicamente baixa, que por anos foi mascarada por eventos excepcionais. <\/p>\n<h2 class=\"wp-block-heading\" id=\"h-o-setor-foi-mal-acostumado-por-dois-grandes-picos-artificiais-de-consumo\">O setor foi \u201cmal acostumado\u201d por dois grandes picos artificiais de consumo <\/h2>\n<p>Em 2020, a pandemia gerou p\u00e2nico e corrida aos supermercados. A estocagem massiva de arroz arrastou o feij\u00e3o como bem complementar, inflando o escoamento a n\u00edveis que jamais refletiram a demanda estrutural do pa\u00eds. <\/p>\n<p>Em 2024, o per\u00edodo tr\u00e1gico das enchentes no Rio Grande do Sul produziu novo duplo choque: mais uma corrida \u00e0s g\u00f4ndolas por medo de desabastecimento e um volume gigantesco de doa\u00e7\u00f5es. Estima-se que entre 100 e 150 mil kg de feij\u00e3o e 200 a 250 mil kg de arroz tenham sido consumidos fora do circuito comercial, limpando estoques industriais e sustentando artificialmente os pre\u00e7os FOB. <\/p>\n<p>Quando esses est\u00edmulos desapareceram, o desequil\u00edbrio ficou exposto. O Brasil produz mais de 3 milh\u00f5es de toneladas de feij\u00e3o (todas as classes) por ano, mas o consumo dom\u00e9stico real \u00e9 pelo menos 200 mil toneladas inferior a esse volume e segue em decl\u00ednio. Parte significativa dos estoques que deveriam ser absorvidos gradualmente foi transferida ao consumidor em momentos de p\u00e2nico. O setor agora convive com volumes excedentes e um ritmo de consumo estruturalmente fraco \u2014 combina\u00e7\u00e3o que pressiona pre\u00e7os de forma cont\u00ednua. <\/p>\n<p>O resultado \u00e9 direto: liquidez m\u00ednima, cota\u00e7\u00f5es deprimidas \u2014 como os R$ 90\/sc do feij\u00e3o-preto comercial em algumas pra\u00e7as ga\u00fachas \u2014 e necessidade urgente de desovar estoques antigos, o que amplia ainda mais a press\u00e3o vendedora. Para sobreviver, o mercado \u00e9 for\u00e7ado a buscar escoamento via exporta\u00e7\u00e3o (perto de 400 mil toneladas nesta temporada, um recorde) e a impor cortes severos de \u00e1rea, como a redu\u00e7\u00e3o j\u00e1 confirmada de quase 40% no plantio do Paran\u00e1. \u00c9 um ajuste doloroso, mas inevit\u00e1vel. <\/p>\n<h2 class=\"wp-block-heading\" id=\"h-efeitos-na-producao-na-industria-e-na-geografia-do-plantio\">Efeitos na produ\u00e7\u00e3o, na ind\u00fastria e na geografia do plantio <\/h2>\n<p>O sinal de alerta acendeu forte no Sul: produtores migrando do feij\u00e3o preto para culturas com maior liquidez e seguran\u00e7a. No Paran\u00e1, a 1\u00aa safra 2025\/26 j\u00e1 vem com cortes expressivos de \u00e1rea (104,2 mil hectares segundo o Deral, redu\u00e7\u00e3o de 38%). No Rio Grande do Sul, a chegada da nova safra carrega n\u00e3o apenas expectativa, mas medo real: como desovar estoques elevados sem aprofundar ainda mais a queda de pre\u00e7os? <\/p>\n<p>A ind\u00fastria vive entre dois mundos: excesso de produto com qualidade baixa (problemas de umidade, impurezas e perdas no beneficiamento) e feij\u00e3o premium caro demais para o consumidor m\u00e9dio. Falta padr\u00e3o, falta p\u00f3s-colheita profissional, falta coordena\u00e7\u00e3o. O varejo quer desconto, a ind\u00fastria quer rendimento, o produtor quer pre\u00e7o. Ningu\u00e9m leva tudo. Resultado: ningu\u00e9m leva nada. <\/p>\n<p>No meio desse caos, h\u00e1 uma luz \u2014 pequena, mas crescente \u2014 nas exporta\u00e7\u00f5es. Lan\u00e7ado oficialmente pelo Instituto Agron\u00f4mico de Campinas (IAC) em 2024, o feij\u00e3o-mungo-preto emerge como o principal destaque do ano. Mesmo sendo uma variedade de cultivo recente no Brasil, j\u00e1 atingiu mais de 170 mil toneladas em exporta\u00e7\u00e3o, garantindo ao pa\u00eds uma posi\u00e7\u00e3o de relev\u00e2ncia entre os fornecedores globais desta leguminosa. <\/p>\n<h2 class=\"wp-block-heading\" id=\"h-o-verdadeiro-problema-nao-e-clima-mas-sistema\">O verdadeiro problema n\u00e3o \u00e9 clima, mas sistema <\/h2>\n<p>Por tr\u00e1s de toda essa instabilidade h\u00e1 uma combina\u00e7\u00e3o poderosa: demanda dom\u00e9stica fraca, cr\u00e9dito caro, estoques desbalanceados, log\u00edstica limitada, aus\u00eancia de instrumentos modernos de comercializa\u00e7\u00e3o e principalmente o famigerado Custo Brasil. Feij\u00e3o \u00e9 alimento b\u00e1sico, mas ainda opera como produto artesanal. O setor ainda vive em 1995, enquanto a competi\u00e7\u00e3o global vive em 2025. <\/p>\n<p>Faltam instrumentos simples e essenciais: contratos padronizados, programa nacional de p\u00f3s-colheita, seguro rural funcional, estrat\u00e9gias de marca, diversifica\u00e7\u00e3o consistente e tradi\u00e7\u00e3o nas exporta\u00e7\u00f5es. Pol\u00edtica p\u00fablica n\u00e3o pode seguir no formato \u201ctapa-buraco\u201d. N\u00e3o se resolve um desajuste anual de centenas de milhares de toneladas com compras emergenciais pontuais. <\/p>\n<p>Se nada for feito, o feij\u00e3o brasileiro vai encolher \u2014 n\u00e3o por falta de voca\u00e7\u00e3o, mas por abandono econ\u00f4mico. Quando o produtor perde margem, reduz \u00e1rea; quando reduz \u00e1rea, reduz variedade; quando reduz variedade, compromete seguran\u00e7a alimentar, diversidade gen\u00e9tica, renda rural e estabilidade regional. Um pa\u00eds que importa e exporta feij\u00e3o ao mesmo tempo precisa admitir: o problema \u00e9 de gest\u00e3o, n\u00e3o de clima. <\/p>\n<h2 class=\"wp-block-heading\" id=\"h-e-para-onde-vai-este-mercado\">E para onde vai este mercado? <\/h2>\n<p>No curto prazo, a tend\u00eancia \u00e9 lateralidade com alguma press\u00e3o em virtude dos primeiros cortes da primeira safra 2025\/26: pouca oferta do carioca comercial sustentando (de forma fr\u00e1gil) os pre\u00e7os; excesso no feij\u00e3o-preto ainda pressionando valores; exporta\u00e7\u00e3o ajudando, mas ainda longe de resolver a equa\u00e7\u00e3o. <\/p>\n<p>No m\u00e9dio prazo, cortes de \u00e1rea podem reequilibrar pre\u00e7os, mas desde que o varejo reaja. <\/p>\n<p>No longo prazo, o futuro \u00e9 bin\u00e1rio: ou a cadeia inova, profissionaliza log\u00edstica, cr\u00e9dito e escoamento, ou o feij\u00e3o seguir\u00e1 o caminho de culturas que perderam protagonismo e s\u00f3 voltaram a aparecer quando j\u00e1 era tarde. <\/p>\n<p>O setor precisa abandonar o improviso e migrar urgentemente para a gest\u00e3o estrat\u00e9gica. A pergunta n\u00e3o \u00e9: \u201co que fazer quando o pre\u00e7o cai?\u201d. <\/p>\n<p>A pergunta deve ser: \u201cpor que ainda esperamos o pre\u00e7o cair para discutir futuro?\u201d <\/p>\n<p>2025 j\u00e1 escancarou a verdade: o feij\u00e3o brasileiro n\u00e3o precisa de sorte. <\/p>\n<p>Precisa de sistema.<\/p>\n<div class=\"wp-block-media-text is-stacked-on-mobile\">\n<figure class=\"wp-block-media-text__media\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"300\" height=\"300\" src=\"https:\/\/agromt.news\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/O-ano-em-que-o-mercado-do-feijao-parou-de.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-4118364 size-full\"  \/><\/figure>\n<div class=\"wp-block-media-text__content\">\n<p><em>*<strong>Evandro Oliveira<\/strong> \u00e9 graduado em Economia pela Pontif\u00edcia Universidade Cat\u00f3lica do Rio Grande do Sul (PUC-RS) e especialista de <a href=\"https:\/\/safras.com.br\/\">Safras &amp; Mercado<\/a> para as culturas de arroz e feij\u00e3o<\/em><\/p>\n<\/div>\n<\/div><\/div>\n<p><br \/>\n<br \/><a href=\"https:\/\/www.canalrural.com.br\/opiniao-noticias\/o-ano-em-que-o-mercado-do-feijao-parou-de-falar-sozinho\/\">Source link <\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H\u00e1 anos o mercado do feij\u00e3o vive em sil\u00eancio operacional: neg\u00f3cios pingados, preg\u00f5es esvaziados, compradores seletivos, produtores desconfiados. 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