{"id":23762,"date":"2025-11-10T10:33:59","date_gmt":"2025-11-10T14:33:59","guid":{"rendered":"https:\/\/agromt.news\/?p=23762"},"modified":"2025-11-10T10:33:59","modified_gmt":"2025-11-10T14:33:59","slug":"o-paradoxo-da-economia-e-a-forca-do-prato-feito","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agromt.news\/?p=23762","title":{"rendered":"O paradoxo da economia e a for\u00e7a do prato feito"},"content":{"rendered":"<p> <br \/>\n<\/p>\n<div>\n<p>A economia brasileira vive um momento curioso e desafiador. De um lado, o pa\u00eds carrega problemas estruturais s\u00e9rios, com d\u00edvida p\u00fablica ultrapassando 75% do PIB, juros altos e gastos governamentais que continuam crescendo acima da arrecada\u00e7\u00e3o. De outro, o Brasil apresenta crescimento econ\u00f4mico superior ao esperado, desemprego no menor n\u00edvel hist\u00f3rico e consumo firme de alimentos. <\/p>\n<p>O economista Ricardo Amorim definiu isso como um verdadeiro paradoxo. \u201cO Brasil vive um paradoxo: problemas fiscais s\u00e9rios e, ainda assim, crescimento econ\u00f4mico acima das previs\u00f5es.\u201d <\/p>\n<p>Esse contraste ajuda a explicar por que a cesta b\u00e1sica e os alimentos essenciais seguem com volume de vendas em alta, mesmo num contexto de desequil\u00edbrio fiscal e cr\u00e9dito caro.<\/p>\n<p>De acordo com a Associa\u00e7\u00e3o Brasileira de Supermercados (Abras), o consumo nos lares subiu 2,67% em 2025 (at\u00e9 setembro), em valores reais deflacionados, e ficou 2,79% acima do mesmo per\u00edodo de 2024. O IBGE mostra que o varejo total cresceu 1,6% no acumulado do ano e atingiu, em fevereiro, o maior patamar da s\u00e9rie hist\u00f3rica. Dentro desse grupo, o segmento de \u201chiper e supermercados, produtos aliment\u00edcios, bebidas e fumo\u201d foi um dos que mais contribu\u00edram, com avan\u00e7o de 1,1% em agosto.<\/p>\n<p>Outro indicador importante, da NIQ (antiga NielsenIQ), confirma a resili\u00eancia: em 2023, a cesta de alimentos e bebidas cresceu 7,4% em volume, superando a m\u00e9dia de todas as categorias, que foi de 1,9%. <\/p>\n<p>Mesmo em meses de oscila\u00e7\u00e3o, como agosto de 2025, quando os dados de PDV mostraram uma queda de 4,4% em volume, mas aumento de 2,5% em receita, o comportamento do consumidor refor\u00e7a uma tend\u00eancia estrutural: a prioridade continua sendo o alimento. <\/p>\n<p>A raz\u00e3o \u00e9 simples e poderosa: emprego e renda real. Hoje, h\u00e1 23 milh\u00f5es de brasileiros a mais empregados do que h\u00e1 quatro anos, e a massa salarial, ajustada pela infla\u00e7\u00e3o, aumentou cerca de R$ 80 bilh\u00f5es. Esse dinheiro adicional, distribu\u00eddo mensalmente, sustenta o consumo de itens essenciais como <strong><a href=\"https:\/\/www.canalrural.com.br\/autor\/marcelo-luders\/\">feij\u00e3o<\/a><\/strong>, arroz, \u00f3leo, farinha, a\u00e7\u00facar, p\u00e3es e biscoitos, garantindo movimento ao com\u00e9rcio, \u00e0 ind\u00fastria e ao campo. <\/p>\n<p>Mesmo com a taxa Selic ainda alta e o cr\u00e9dito para bens dur\u00e1veis em retra\u00e7\u00e3o, a renda corrente permite que o consumidor mantenha o b\u00e1sico no carrinho e, em muitos casos, at\u00e9 melhore a qualidade dos produtos adquiridos. \u00c9 o fen\u00f4meno da \u201csubstitui\u00e7\u00e3o positiva\u201d: trocam-se sup\u00e9rfluos e lazer por comida de verdade, mais nutritiva e com origem conhecida. <\/p>\n<p>O agroneg\u00f3cio brasileiro, mesmo enfrentando desafios de custo e log\u00edstica, vive um dos seus ciclos mais produtivos da hist\u00f3ria, com safra recorde de gr\u00e3os estimada em +17%. Essa abund\u00e2ncia ajuda a manter os pre\u00e7os dos alimentos relativamente est\u00e1veis, mesmo com o aumento da demanda, e fortalece a economia rural. O agro \u00e9, mais uma vez, a \u00e2ncora que sustenta o consumo interno e evita desequil\u00edbrios mais severos. <\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, o Brasil se beneficia de um ambiente externo peculiar. As tens\u00f5es geopol\u00edticas, como a guerra na Ucr\u00e2nia, conflitos comerciais entre Estados Unidos e China e instabilidade em pa\u00edses emergentes, fazem com que fluxos de capital busquem ref\u00fagio em economias mais previs\u00edveis, como a brasileira. Isso ajuda a atrair investimento direto, ampliar a gera\u00e7\u00e3o de empregos e refor\u00e7ar o c\u00edrculo virtuoso do consumo. <\/p>\n<p>Por outro lado, h\u00e1 um alerta importante: esse ciclo n\u00e3o \u00e9 infinito. Se o cen\u00e1rio global se deteriorar, ou se o pa\u00eds continuar postergando os ajustes nas contas p\u00fablicas, o capital pode migrar e o consumo perder f\u00f4lego. O desafio est\u00e1 em transformar essa fase de bonan\u00e7a aparente em crescimento sustent\u00e1vel, com produtividade, efici\u00eancia fiscal e valoriza\u00e7\u00e3o dos setores que realmente alimentam e empregam o pa\u00eds. <\/p>\n<p>Enquanto isso, o prato feito brasileiro, composto por arroz, feij\u00e3o, prote\u00edna e salada, segue sendo torpedeado pelo marketing dos ultraprocessados. O crescimento dos problemas de sa\u00fade mostra que \u00e9 preciso reagir. <\/p>\n<p>A comida de verdade \u00e9 mais que uma quest\u00e3o nutricional: \u00e9 uma for\u00e7a econ\u00f4mica e cultural que conecta campo e cidade, produtor e consumidor. \u00c9 ela que d\u00e1 condi\u00e7\u00f5es f\u00edsicas e at\u00e9 mesmo ps\u00edquicas \u00e0 nossa popula\u00e7\u00e3o para suportar o estresse de um mundo polarizado que busca nos manipular pol\u00edtica e economicamente. <\/p>\n<p>Por isso, movimentos como o Viva Feij\u00e3o, liderado pelo Ibrafe, ganham import\u00e2ncia. Eles mostram que o futuro da alimenta\u00e7\u00e3o e da economia pode e deve passar por uma agricultura mais consciente, regenerativa e valorizada. O feij\u00e3o, alimento acess\u00edvel, saud\u00e1vel e de forte identidade nacional, est\u00e1 no centro dessa transforma\u00e7\u00e3o. Em tempos de incerteza fiscal e pol\u00edtica, \u00e9 o alimento de verdade que d\u00e1 estabilidade ao pa\u00eds. <\/p>\n<p>O Brasil pode ter uma economia desequilibrada, mas tem algo que o mant\u00e9m em movimento: a confian\u00e7a do povo no prato cheio e o trabalho incans\u00e1vel de quem produz cada gr\u00e3o que o comp\u00f5e. O desafio agora \u00e9 transformar esse consumo em desenvolvimento com prop\u00f3sito, onde produzir e comer bem continuem caminhando juntos. <\/p>\n<p>Afinal, como mostra a hist\u00f3ria recente, a for\u00e7a do Brasil come\u00e7a no campo e termina no prato, de prefer\u00eancia, com muito feij\u00e3o.<\/p>\n<div class=\"wp-block-media-text is-stacked-on-mobile\">\n<figure class=\"wp-block-media-text__media\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"346\" height=\"278\" src=\"https:\/\/agromt.news\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/Brasil-bate-recorde-nas-exportacoes-e-conquista-premio-por-sustentabilidade.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-4103453 size-full\"  \/><\/figure>\n<div class=\"wp-block-media-text__content\">\n<p><em>*<strong>Marcelo L\u00fcders<\/strong> \u00e9 presidente do Instituto Brasileiro do Feij\u00e3o e Pulses (Ibrafe), e atua na promo\u00e7\u00e3o do feij\u00e3o brasileiro no mercado interno e internacional<\/em><\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n<p><em>O\u00a0<strong>Canal Rural<\/strong>\u00a0n\u00e3o se responsabiliza pelas opini\u00f5es e conceitos emitidos nos textos desta sess\u00e3o, sendo os conte\u00fados de inteira responsabilidade de seus autores. A empresa se reserva o direito de fazer ajustes no texto para adequa\u00e7\u00e3o \u00e0s normas de publica\u00e7\u00e3o.<\/em><\/p>\n<\/p><\/div>\n<p><br \/>\n<br \/><a href=\"https:\/\/www.canalrural.com.br\/opiniao-noticias\/o-paradoxo-da-economia-e-a-forca-do-prato-feito\/\">Source link <\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A economia brasileira vive um momento curioso e desafiador. 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