{"id":21995,"date":"2025-10-13T09:07:31","date_gmt":"2025-10-13T13:07:31","guid":{"rendered":"https:\/\/agromt.news\/?p=21995"},"modified":"2025-10-13T09:07:31","modified_gmt":"2025-10-13T13:07:31","slug":"o-pais-onde-o-voto-vale-mais-que-a-producao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agromt.news\/?p=21995","title":{"rendered":"o pa\u00eds onde o voto vale mais que a produ\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p> <br \/>\n<\/p>\n<div>\n<p>O governo federal anunciou uma mudan\u00e7a estrutural no sistema de cr\u00e9dito imobili\u00e1rio, permitindo que parte dos dep\u00f3sitos compuls\u00f3rios da poupan\u00e7a, hoje direcionados em 65% ao financiamento habitacional, seja liberada para ampliar o cr\u00e9dito e reduzir os juros da casa pr\u00f3pria.<\/p>\n<p>A medida \u00e9 tecnicamente interessante e politicamente inteligente: fala diretamente com milh\u00f5es de brasileiros urbanos, de diferentes classes sociais, que sonham com o teto pr\u00f3prio.<\/p>\n<p>Mas revela tamb\u00e9m o car\u00e1ter eleitoral das decis\u00f5es econ\u00f4micas no Brasil. Enquanto o governo reforma o cr\u00e9dito habitacional para ganhar votos, o cr\u00e9dito rural segue travado, mesmo sendo o setor que sustenta o emprego, as exporta\u00e7\u00f5es e o super\u00e1vit da balan\u00e7a comercial.<\/p>\n<p>O Brasil rural \u00e9 composto por cerca de 77% de pequenos produtores familiares e 23% de produtores m\u00e9dios e grandes. Esses 23% respondem por aproximadamente 75% do valor total da produ\u00e7\u00e3o agropecu\u00e1ria \u2014 ou seja, s\u00e3o eles que garantem o abastecimento, o saldo comercial e a gera\u00e7\u00e3o de renda no interior.<\/p>\n<p>Mas h\u00e1 um problema: esses produtores representam poucos votos. S\u00e3o numericamente minorit\u00e1rios, dispersos geograficamente e com baixo impacto eleitoral. Em termos pol\u00edticos, n\u00e3o elegem governos. E, por isso, ficam fora das grandes reformas econ\u00f4micas.<\/p>\n<p>No outro extremo, o cr\u00e9dito habitacional fala com dezenas de milh\u00f5es de fam\u00edlias urbanas \u2014 um p\u00fablico que decide elei\u00e7\u00f5es. Liberar compuls\u00f3rios da poupan\u00e7a e ampliar o cr\u00e9dito para moradia \u00e9 mais que pol\u00edtica econ\u00f4mica: \u00e9 estrat\u00e9gia eleitoral.<\/p>\n<p>Os 23% de produtores m\u00e9dios e grandes, que respondem pela maior parte da produ\u00e7\u00e3o agropecu\u00e1ria, enfrentam hoje juros proibitivos, limites travados e aus\u00eancia de cr\u00e9dito novo.<br \/>Negociam d\u00edvidas, mas n\u00e3o conseguem cr\u00e9dito adicional para operar, o que compromete o ciclo produtivo.<\/p>\n<h2 class=\"wp-block-heading\" id=\"h-a-diferenca-e-brutal\">A diferen\u00e7a \u00e9 brutal:<\/h2>\n<ul class=\"wp-block-list\">\n<li>O cr\u00e9dito urbano \u00e9 reformado por decreto;<\/li>\n<li>O cr\u00e9dito rural \u00e9 remendado por renegocia\u00e7\u00e3o.<\/li>\n<\/ul>\n<p>E o resultado \u00e9 previs\u00edvel: o Brasil financia o consumo, mas estrangula a produ\u00e7\u00e3o. Se o governo realmente quisesse equilibrar o jogo, aplicaria ao campo a mesma l\u00f3gica usada na habita\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<p>Liberar parte dos dep\u00f3sitos compuls\u00f3rios \u00e0 vista, que hoje ficam imobilizados no sistema financeiro, para irrigar cr\u00e9dito com juros menores e prazos mais longos aos produtores rurais.<\/p>\n<p>Essa medida, tecnicamente vi\u00e1vel e de impacto macroecon\u00f4mico baixo, permitiria:<\/p>\n<ul class=\"wp-block-list\">\n<li>Aumentar a liquidez para o cr\u00e9dito rural sem depender de novos subs\u00eddios fiscais.<\/li>\n<li>Reduzir os spreads banc\u00e1rios no financiamento agr\u00edcola, que hoje superam 20% ao ano.<\/li>\n<li>Fortalecer os 23% de produtores m\u00e9dios e grandes que sustentam a produ\u00e7\u00e3o e as exporta\u00e7\u00f5es, mas est\u00e3o sem acesso a capital competitivo.<\/li>\n<li>Gerar efeito multiplicador sobre emprego, log\u00edstica e renda nas regi\u00f5es do interior.<\/li>\n<\/ul>\n<p>Em resumo: o governo poderia transformar uma decis\u00e3o pol\u00edtica em pol\u00edtica de Estado, usando os dep\u00f3sitos \u00e0 vista como instrumento de desenvolvimento rural, da mesma forma que faz com a poupan\u00e7a urbana.<\/p>\n<p>A diferen\u00e7a n\u00e3o est\u00e1 na economia \u2014 est\u00e1 nas urnas. No Brasil, o cr\u00e9dito \u00e9 concedido conforme o peso do eleitor, n\u00e3o o peso da produ\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Nas cidades, a habita\u00e7\u00e3o \u00e9 pauta eleitoral de massa: Cada contrato assinado \u00e9 uma fam\u00edlia satisfeita, um voto potencial. No campo, o cr\u00e9dito \u00e9 tema t\u00e9cnico, sem glamour nem palco, um investimento silencioso que n\u00e3o rende manchete nem voto.<\/p>\n<p>Enquanto isso, o pa\u00eds segue dependente de exporta\u00e7\u00f5es do agro, mas incapaz de oferecer cr\u00e9dito barato a quem produz. \u00c9 o paradoxo do Brasil moderno: o campo sustenta o PIB, mas a cidade decide o or\u00e7amento.<\/p>\n<h2 class=\"wp-block-heading\" id=\"h-credito-para-votos-ou-credito-para-producao\">Cr\u00e9dito para votos ou cr\u00e9dito para produ\u00e7\u00e3o?<\/h2>\n<p>A libera\u00e7\u00e3o de compuls\u00f3rios da poupan\u00e7a para o cr\u00e9dito imobili\u00e1rio \u00e9 uma medida de impacto pol\u00edtico imediato. Mas o verdadeiro desafio \u00e9 reformar o cr\u00e9dito rural, permitindo que os dep\u00f3sitos \u00e0 vista financiem com juros competitivos os 23% de produtores que respondem por 75% da produ\u00e7\u00e3o nacional.<\/p>\n<p>O Brasil precisa escolher se quer um cr\u00e9dito que ganha elei\u00e7\u00f5es ou um cr\u00e9dito que gera riqueza. Enquanto o governo financiar votos e esquecer a produ\u00e7\u00e3o, continuar\u00e1 faltando coer\u00eancia entre o discurso de crescimento e a pr\u00e1tica da pol\u00edtica.<\/p>\n<p>Afinal, de nada adianta construir casas se faltar cr\u00e9dito para quem produz o alimento que vai dentro delas.<\/p>\n<div class=\"wp-block-media-text is-stacked-on-mobile\">\n<figure class=\"wp-block-media-text__media\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"683\" height=\"1024\" alt=\"Miguel Daoud\" class=\"wp-image-4095706 size-full\"  data-lazy- src=\"https:\/\/agromt.news\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/Como-guerras-e-crises-moldaram-o-preco-das-commodities-nos.jpg\"\/><img decoding=\"async\" width=\"683\" height=\"1024\" src=\"https:\/\/agromt.news\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/Como-guerras-e-crises-moldaram-o-preco-das-commodities-nos.jpg\" alt=\"Miguel Daoud\" class=\"wp-image-4095706 size-full\"  \/><\/figure>\n<div class=\"wp-block-media-text__content\">\n<p class=\"has-text-align-center\">*<em><strong>Miguel Daoud<\/strong>\u00a0\u00e9 comentarista de Economia e Pol\u00edtica\u00a0do Canal Rural<\/em><\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n<p><em>O\u00a0<strong>Canal Rural<\/strong>\u00a0n\u00e3o se responsabiliza pelas opini\u00f5es e conceitos emitidos nos textos desta sess\u00e3o, sendo os conte\u00fados de inteira responsabilidade de seus autores. A empresa se reserva o direito de fazer ajustes no texto para adequa\u00e7\u00e3o \u00e0s normas de publica\u00e7\u00e3o.<\/em><\/p>\n<\/p><\/div>\n<p><br \/>\n<br \/><a href=\"https:\/\/www.canalrural.com.br\/opiniao-noticias\/credito-habitacional-e-credito-rural-o-pais-onde-o-voto-vale-mais-que-a-producao\/\">Source link <\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O governo federal anunciou uma mudan\u00e7a estrutural no sistema de cr\u00e9dito imobili\u00e1rio, permitindo que parte dos dep\u00f3sitos compuls\u00f3rios da poupan\u00e7a,<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":21996,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"_uf_show_specific_survey":0,"_uf_disable_surveys":false,"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-21995","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-news"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agromt.news\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/21995"}],"collection":[{"href":"https:\/\/agromt.news\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agromt.news\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agromt.news\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agromt.news\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=21995"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agromt.news\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/21995\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agromt.news\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/21996"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agromt.news\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=21995"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agromt.news\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=21995"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agromt.news\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=21995"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}