{"id":21909,"date":"2025-10-10T22:21:58","date_gmt":"2025-10-11T02:21:58","guid":{"rendered":"https:\/\/agromt.news\/?p=21909"},"modified":"2025-10-10T22:21:58","modified_gmt":"2025-10-11T02:21:58","slug":"negociar-nao-faz-o-produtor-plantar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agromt.news\/?p=21909","title":{"rendered":"negociar n\u00e3o faz o produtor plantar"},"content":{"rendered":"<p> <br \/>\n<\/p>\n<div>\n<p>O produtor ga\u00facho chegou a 2025 com tr\u00eas choques de estiagem e uma enchente hist\u00f3rica na conta. O resultado \u00e9 queda de produ\u00e7\u00e3o, receita comprimida e um passivo que foi sendo \u201crolado\u201d, mas sem recompor limite para o pr\u00f3ximo plantio. <\/p>\n<p>Sem limite, n\u00e3o h\u00e1 custeio; sem custeio, n\u00e3o h\u00e1 renda para pagar nem a d\u00edvida rolada nem a corrente. O estado do Rio Grande do Sul registrou, em 2024, a pior trag\u00e9dia clim\u00e1tica de sua hist\u00f3ria recente, com mais de <strong>200 mil <\/strong>propriedades rurais atingidas \u2014 um choque de produtividade e de caixa que n\u00e3o some com uma mera renegocia\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A dimens\u00e3o macro agrava: a Selic em 15% a.a. prolonga a restri\u00e7\u00e3o monet\u00e1ria, freia cr\u00e9dito e atividade e pressiona o fluxo de caixa do campo. Mesmo com alguma desinfla\u00e7\u00e3o, o pr\u00f3prio governo reconhece a transmiss\u00e3o forte da pol\u00edtica de juros sobre cr\u00e9dito e PIB.<\/p>\n<p>Houve avan\u00e7os: o CMN e o governo abriram linhas especiais para produtores afetados por eventos clim\u00e1ticos, inclusive no RS, com taxas entre <strong>2% e 10% a.a.<\/strong> para liquidar\/amortizar d\u00edvidas, e ampliaram o rol de munic\u00edpios contemplados (agora 459). <\/p>\n<p>Tamb\u00e9m vieram R$ 12 bilh\u00f5es em cr\u00e9dito emergencial segmentado por porte. S\u00e3o passos corretos \u2014 mas focalizados em renegociar ou quitar passivos. Eles n\u00e3o reconstroem o limite de custeio para o pr\u00f3ximo ciclo quando o produtor j\u00e1 est\u00e1 \u201cno teto\u201d.<\/p>\n<p>No Plano Safra 2025\/26, as taxas equalizadas ficaram abaixo do mercado, mas a base Selic alta encareceu e racionou o cr\u00e9dito, efeito sentido sobretudo por m\u00e9dios e grandes fora das faixas mais subsidiadas. Entidades do setor j\u00e1 alertaram que a atual estrutura de juros compromete a efetividade do Plano.<\/p>\n<h2 class=\"wp-block-heading\" id=\"h-onde-doi-na-pratica\">Onde d\u00f3i na pr\u00e1tica<\/h2>\n<ul class=\"wp-block-list\">\n<li><strong>Risco e garantias:<\/strong> com balan\u00e7os fragilizados, os bancos elevam risco, pedem mais garantias e bloqueiam novos limites para quem j\u00e1 rolou d\u00edvidas.<\/li>\n<li><strong>Custeio estrangulado:<\/strong> sem capital de giro\/custeio, o produtor n\u00e3o planta e n\u00e3o gera a renda operacional que viabiliza pagar a d\u00edvida antiga e a nova.<\/li>\n<li><strong>Efeito bola de neve:<\/strong> renegocia-se hoje, inadimpl\u00eancia amanh\u00e3 porque faltou grana para a safra que pagaria o acordo.<\/li>\n<li><strong>Proposta:<\/strong> \u201cCr\u00e9dito-Espelho RS\u201d (novo limite na mesma medida da d\u00edvida rolada)<\/li>\n<li><strong>A solu\u00e7\u00e3o simples:<\/strong> toda d\u00edvida rural renegociada\/rolada no RS daria direito autom\u00e1tico a um novo limite de cr\u00e9dito de custeio no mesmo montante, o \u201ccr\u00e9dito-espelho\u201d,com garantia p\u00fablica parcial. Assim, o produtor recebe o combust\u00edvel para plantar, gerar caixa e pagar o acordo e as parcelas correntes.<\/li>\n<li><strong>Como viabilizar a garantia:<\/strong> usar e integrar fundos garantidores j\u00e1 existentes (e hoje subutilizados para o agro) \u2014 FGI\/BNDES, FGO e Fampe\/Sebrae \u2014 e, se necess\u00e1rio, criar um \u201cFGI Rural\u201d dedicado ao agroneg\u00f3cio, como o pr\u00f3prio BNDES j\u00e1 aventa. Complementar com FGE (para opera\u00e7\u00f5es ligadas \u00e0 exporta\u00e7\u00e3o\/commodities) quando couber<\/li>\n<\/ul>\n<h2 class=\"wp-block-heading\" id=\"h-arquitetura-sugerida\">Arquitetura sugerida<\/h2>\n<ul class=\"wp-block-list\">\n<li><strong>Elegibilidade:<\/strong> produtores do RS com comprova\u00e7\u00e3o de impacto clim\u00e1tico (2020\u20132025), com opera\u00e7\u00f5es prorrogadas por Resolu\u00e7\u00f5es CMN recentes.<\/li>\n<li><strong>Tamanho do cr\u00e9dito: <\/strong>valor da d\u00edvida rolada (teto por CPF\/CNPJ).<\/li>\n<li><strong>Finalidade: <\/strong>custeio e capital de giro vinculados ao ciclo produtivo (insumos, servi\u00e7os, armazenagem).<\/li>\n<li><strong>Garantia p\u00fablica:<\/strong> cobertura 60%\u201380% via FGI\/FGO\/Fampe\/\u201cFGI Rural\u201d; contrapartida de 20%\u201340% privada (CPR, penhor, aval).<\/li>\n<li><strong>Taxa e prazo:<\/strong> juros equalizados nas faixas j\u00e1 abertas para calamidade (2%\u201310% a.a., conforme porte), prazo compat\u00edvel com ciclo + 1 safra (at\u00e9 36 meses), com b\u00f4nus de adimpl\u00eancia.<\/li>\n<li><strong>Condi\u00e7\u00f5es prudenciais:<\/strong> acesso condicionado a ZARC, seguro rural\/PRA ou ades\u00e3o a programa de gest\u00e3o de riscos (reduz risco moral e custo fiscal no tempo).<\/li>\n<li><strong>Securitiza\u00e7\u00e3o\/sa\u00edda:<\/strong> permitir CRI\/CRA do \u201ccr\u00e9dito-espelho\u201d com a garantia p\u00fablica parcial, abrindo espa\u00e7o a fundos privados.<\/li>\n<\/ul>\n<h2 class=\"wp-block-heading\" id=\"h-por-que-funciona\">Por que funciona?<\/h2>\n<ul class=\"wp-block-list\">\n<li><strong>Reata o ciclo econ\u00f4mico:<\/strong> novo custeio \u2192 produ\u00e7\u00e3o \u2192 receita \u2192 pagamento da d\u00edvida antiga e da nova.<\/li>\n<li><strong>Reduz perda esperada do Tesouro: <\/strong>garantia cobre parte do risco, mas a safra produzida diminui a inadimpl\u00eancia.<\/li>\n<li><strong>Custo fiscal control\u00e1vel:<\/strong> em vez de subs\u00eddios difusos, a garantia \u00e9 condicionada (RS\/Calamidade), com limite, prazo e r\u00e9gua de desempenho (b\u00f4nus de adimpl\u00eancia e gatilhos de corte).<\/li>\n<\/ul>\n<h2 class=\"wp-block-heading\" id=\"h-comparativo-o-que-temos-hoje-x-o-que-proponho\">Comparativo: o que temos hoje x o que proponho<\/h2>\n<ul class=\"wp-block-list\">\n<li><strong>Hoje:<\/strong> prorroga\u00e7\u00e3o, linhas para amortizar\/liquidar passivos e algum cr\u00e9dito novo, por\u00e9m sem regra autom\u00e1tica para recompor limite em quem j\u00e1 estourou o teto.<\/li>\n<li><strong>Proposta:<\/strong> regra autom\u00e1tica de \u201ccr\u00e9dito-espelho\u201d com garantia p\u00fablica \u2014 foco no giro que viabiliza a renda operacional para honrar a pr\u00f3pria renegocia\u00e7\u00e3o.<\/li>\n<\/ul>\n<h2 class=\"wp-block-heading\" id=\"h-evidencias-e-contexto\">Evid\u00eancias e contexto<\/h2>\n<p>Impactos clim\u00e1ticos severos no RS rebaixaram produ\u00e7\u00e3o e renda; o Ipea e o governo do RS quantificam perda ampla em gr\u00e3os (soja, milho, trigo, arroz) e 206,6 mil propriedades afetadas.<\/p>\n<p>O governo federal tem linhas e pacotes (R$ 12 bi; taxas reduzidas e novos munic\u00edpios), e o CMN acaba de aprovar mais medidas focadas em produtores atingidos \u2014 especialmente no RS \u2014, sinalizando espa\u00e7o regulat\u00f3rio para ajustes adicionais como o \u201ccr\u00e9dito-espelho\u201d.<\/p>\n<p>Em paralelo, a Selic em 15% segue sendo uma \u00e2ncora de custo\/escassez de cr\u00e9dito. Mesmo com equaliza\u00e7\u00e3o no Plano Safra, a base cara raciona e limita o alcance pr\u00e1tico.<\/p>\n<h2 class=\"wp-block-heading\" id=\"h-contrapartidas-responsaveis\">Contrapartidas respons\u00e1veis<\/h2>\n<ol class=\"wp-block-list\">\n<li>Gest\u00e3o de risco obrigat\u00f3ria (ZARC + seguro rural), reduzindo sinistralidade.<\/li>\n<li>Transpar\u00eancia e governan\u00e7a dos fundos garantidores (comit\u00ea RS, indicadores mensais).<\/li>\n<li>Cl\u00e1usula de performance: b\u00f4nus de juros para adimpl\u00eancia e redu\u00e7\u00e3o autom\u00e1tica da garantia conforme melhora de rating.<\/li>\n<li>Foco territorial: priorizar cadeias cr\u00edticas (arroz, leite, soja) e munic\u00edpios com laudo de calamidade.<\/li>\n<\/ol>\n<p>Negociar sem recompor limite \u00e9 empurrar o produtor para fora da pr\u00f3xima safra. O \u201ccr\u00e9dito-espelho\u201d com garantia p\u00fablica parcial \u00e9 a ponte entre a d\u00edvida rolada e a renda operacional que paga a conta. <\/p>\n<p>O arcabou\u00e7o regulat\u00f3rio j\u00e1 existe (CMN, fundos garantidores); falta vontade de conectar as pe\u00e7as. No RS, isso n\u00e3o \u00e9 pol\u00edtica de nicho: \u00e9 seguran\u00e7a alimentar, emprego e arrecada\u00e7\u00e3o. E \u00e9 agora \u2014 antes que a lavoura vire estat\u00edstica<\/p>\n<div class=\"wp-block-media-text is-stacked-on-mobile\">\n<figure class=\"wp-block-media-text__media\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"683\" height=\"1024\" alt=\"Miguel Daoud\" class=\"wp-image-4095706 size-full\"  data-lazy- src=\"https:\/\/agromt.news\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/Como-guerras-e-crises-moldaram-o-preco-das-commodities-nos.jpg\"\/><img decoding=\"async\" width=\"683\" height=\"1024\" src=\"https:\/\/agromt.news\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/Como-guerras-e-crises-moldaram-o-preco-das-commodities-nos.jpg\" alt=\"Miguel Daoud\" class=\"wp-image-4095706 size-full\"  \/><\/figure>\n<div class=\"wp-block-media-text__content\">\n<p class=\"has-text-align-center\">*<em><strong>Miguel Daoud<\/strong>\u00a0\u00e9 comentarista de Economia e Pol\u00edtica\u00a0do Canal Rural<\/em><\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n<p><em>O\u00a0<strong>Canal Rural<\/strong>\u00a0n\u00e3o se responsabiliza pelas opini\u00f5es e conceitos emitidos nos textos desta sess\u00e3o, sendo os conte\u00fados de inteira responsabilidade de seus autores. A empresa se reserva o direito de fazer ajustes no texto para adequa\u00e7\u00e3o \u00e0s normas de publica\u00e7\u00e3o.<\/em><\/p>\n<\/p><\/div>\n<p><br \/>\n<br \/><a href=\"https:\/\/www.canalrural.com.br\/opiniao-noticias\/credito-travado-no-campo-gaucho-negociar-nao-faz-o-produtor-plantar\/\">Source link <\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O produtor ga\u00facho chegou a 2025 com tr\u00eas choques de estiagem e uma enchente hist\u00f3rica na conta. 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