{"id":18799,"date":"2025-08-19T06:16:05","date_gmt":"2025-08-19T10:16:05","guid":{"rendered":"https:\/\/agromt.news\/?p=18799"},"modified":"2025-08-19T06:16:05","modified_gmt":"2025-08-19T10:16:05","slug":"inadimplencia-no-agro-e-a-fragilidade-orcamentaria-do-seguro-rural","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agromt.news\/?p=18799","title":{"rendered":"Inadimpl\u00eancia no agro e a fragilidade or\u00e7ament\u00e1ria do seguro rural"},"content":{"rendered":"<p> <br \/>\n<\/p>\n<div>\n<p>A inadimpl\u00eancia no agroneg\u00f3cio brasileiro j\u00e1 virou um problema estrutural. Em 2024, foram 1.272 pedidos de recupera\u00e7\u00e3o judicial, mais que o dobro do ano anterior. Apenas nos tr\u00eas primeiros meses de 2025, houve alta adicional de 45%. Bancos e cooperativas de cr\u00e9dito registram crescimento recorde nos <strong><a href=\"https:\/\/www.canalrural.com.br\/agricultura\/agronegocio\/crescimento-da-inadimplencia-do-agro-derruba-lucro-do-banco-brasil-no-terceiro-trimestre\/\">atrasos de pagamento<\/a><\/strong>, acendendo o alerta sobre a sustentabilidade do setor.<\/p>\n<h2 class=\"wp-block-heading\" id=\"h-quando-o-seguro-falta-sobra-divida\">Quando o seguro falta, sobra d\u00edvida<\/h2>\n<p>O caso recente do Rio Grande do Sul \u00e9 emblem\u00e1tico: ap\u00f3s perdas clim\u00e1ticas severas, o governo criou um grupo de trabalho para discutir medidas de socorro ao endividamento dos produtores. Se houvesse cobertura ampla pelo seguro rural, boa parte dessas demandas emergenciais poderia ter sido evitada.<\/p>\n<p>E n\u00e3o \u00e9 a primeira vez: o pa\u00eds insiste em renegocia\u00e7\u00f5es de d\u00edvidas sem sequer considerar o seguro rural como parte da equa\u00e7\u00e3o. Renegociar hoje n\u00e3o resolve se amanh\u00e3 outra seca ou enchente levar tudo de volta \u00e0 estaca zero. O que falta s\u00e3o medidas estruturantes, n\u00e3o apenas respostas emergenciais.<\/p>\n<p>Em 2024, menos de 15% da \u00e1rea plantada estava protegida por algum mecanismo de seguro rural ou Proagro. Isso significa que, a cada 100 hectares cultivados no pa\u00eds, 85 hectares ficaram totalmente expostos ao clima. Ainda assim, o seguro mostra resultados concretos. <\/p>\n<p>Entre 2003 e 2024, mesmo com baixo apoio em subs\u00eddios, as seguradoras indenizaram produtores em valores atualizados equivalentes a R$ 37 bilh\u00f5es, sendo mais da metade apenas nos \u00faltimos quatro anos.<\/p>\n<p>Se o apoio governamental tivesse sido ampliado, os resultados poderiam ser ainda mais expressivos. Os estados que mais receberam indeniza\u00e7\u00f5es foram Paran\u00e1, Rio Grande do Sul, S\u00e3o Paulo e Mato Grosso do Sul \u2014 justamente alguns dos maiores polos agr\u00edcolas do pa\u00eds que sofreram com as secas e outras adversidades do clima extremo.<\/p>\n<p>Esses valores deixaram de ir para a mesa de prorroga\u00e7\u00f5es do cr\u00e9dito rural \u2014 sempre<br \/>muito mais onerosas para a Uni\u00e3o (sociedade), para o sistema financeiro e para o agricultor \u2014 em compara\u00e7\u00e3o com a via preventiva do seguro.<\/p>\n<h2 class=\"wp-block-heading\" id=\"h-orcamento-que-se-perde-no-caminho\">Or\u00e7amento que se perde no caminho<\/h2>\n<p>Um dos fatores que alimenta esse cen\u00e1rio de inadimpl\u00eancia \u00e9 a instabilidade do Programa de Subven\u00e7\u00e3o ao Pr\u00eamio do Seguro Rural (PSR), do Minist\u00e9rio da Agricultura (Mapa). Criado para reduzir riscos clim\u00e1ticos e financeiros da produ\u00e7\u00e3o agr\u00edcola, o programa vem sendo esvaziado por cortes, bloqueios e contingenciamentos or\u00e7ament\u00e1rios.<\/p>\n<p>O PSR tinha or\u00e7amento de R$ 1,06 bilh\u00e3o para 2025. Mas, na pr\u00e1tica, o valor se reduziu<br \/>drasticamente:<\/p>\n<ul class=\"wp-block-list\">\n<li>R$ 68 milh\u00f5es foram usados para quitar parte das pend\u00eancias de 2024, que ainda<br \/>somam R$ 32 milh\u00f5es;<\/li>\n<li>R$ 37 milh\u00f5es foram efetivamente cancelados;<\/li>\n<li>R$ 354 milh\u00f5es permanecem bloqueados desde junho, justamente no per\u00edodo de maior contrata\u00e7\u00e3o das ap\u00f3lices de ver\u00e3o.<\/li>\n<\/ul>\n<p>Assim, sobraram apenas R$ 601 milh\u00f5es para operar o programa \u2014 montante j\u00e1 quase<br \/>integralmente consumido pela safra de inverno e por outras atividades no primeiro<br \/>semestre.<\/p>\n<h2 class=\"wp-block-heading\" id=\"h-menos-seguro-mais-risco\">Menos seguro, mais risco<\/h2>\n<p>A descontinuidade tem reflexo direto na \u00e1rea segurada:<\/p>\n<\/div>\n<div>\n<ul class=\"wp-block-list\">\n<li>14 milh\u00f5es de hectares protegidos em 2021;<\/li>\n<li>7 milh\u00f5es em 2024; e<\/li>\n<li>em 2025, a cobertura pode cair para menos de 3 milh\u00f5es de hectares e retornar a<br \/>patamares de dez anos atr\u00e1s, caso o MAapa n\u00e3o consiga reverter os valores bloqueados.<\/li>\n<\/ul>\n<p>Menos seguro significa mais exposi\u00e7\u00e3o do produtor. E mais exposi\u00e7\u00e3o significa mais inadimpl\u00eancia, mais renegocia\u00e7\u00f5es de d\u00edvidas e queda de confian\u00e7a no cr\u00e9dito rural. \u00c9 um c\u00edrculo vicioso que amea\u00e7a a sa\u00fade financeira do setor.<\/p>\n<h2 class=\"wp-block-heading\" id=\"h-do-socorro-a-prevencao\">Do socorro \u00e0 preven\u00e7\u00e3o<\/h2>\n<p>O Brasil continua adotando pol\u00edticas reativas, acionando linhas emergenciais apenas ap\u00f3s a ocorr\u00eancia de perdas, o que \u00e9 caro e ineficaz para resolver os problemas estruturais.<\/p>\n<p>Em pa\u00edses com abordagem preventiva, o seguro rural \u00e9 parte central da estrat\u00e9gia. Na Espanha, o Seguro Agr\u00edcola Combinado atua como pol\u00edtica p\u00fablica consolidada, com gest\u00e3o compartilhada entre o Estado (Enesa), o sistema de resseguro p\u00fablico (Consorcio de Compensaci\u00f3n de Seguros) e o setor privado (Agroseguro).<\/p>\n<p>O 46\u00ba Plano de Seguros Agr\u00e1rios Combinados foi aprovado com dota\u00e7\u00e3o de 315 milh\u00f5es<br \/>de euros, ou seja, R$ 2 bilh\u00f5es, representando um aumento de 10,7% em rela\u00e7\u00e3o a 2024.  Entre 2014 e 2020, o governo espanhol destinou cerca de 2 bilh\u00f5es de euros (R$ 12,6 bilh\u00f5es em 7 anos) para subs\u00eddios ao seguro rural, sendo o pa\u00eds que mais investe nessa pol\u00edtica na Uni\u00e3o Europeia.<\/p>\n<p>Nos Estados Unidos, o seguro rural \u2014 via programa do Farm Bill \u2014 representa a pol\u00edtica agr\u00edcola de maior escala. O programa de seguro agr\u00edcola custa cerca de US$ 10 bilh\u00f5es por ano, com cobertura de 90% das terras eleg\u00edveis e subs\u00eddio de cerca de 62% do pr\u00eamio, o que garante prote\u00e7\u00e3o robusta e previsibilidade ao setor.<\/p>\n<h2 class=\"wp-block-heading\" id=\"h-um-pacto-de-longo-prazo\">Um pacto de longo prazo<\/h2>\n<p>O Brasil precisa reavaliar sua estrat\u00e9gia agr\u00edcola. Com dimens\u00f5es continentais e papel central no abastecimento global, o pa\u00eds n\u00e3o pode se sustentar com pol\u00edticas fr\u00e1geis e improvisadas. \u00c9 necess\u00e1rio construir um pacto de longo prazo que assegure:<\/p>\n<ol class=\"wp-block-list\">\n<li>Previsibilidade e capacidade de expans\u00e3o or\u00e7ament\u00e1ria do PSR;<\/li>\n<li>Gest\u00e3o de riscos eficaz, com maior alcance e ades\u00e3o;<\/li>\n<li>Sustentabilidade do cr\u00e9dito rural, preservando a confian\u00e7a de produtores, bancos e cooperativas.<\/li>\n<\/ol>\n<p><strong>O seguro rural n\u00e3o \u00e9 gasto: \u00e9 investimento em resili\u00eancia. Sem ele, o Brasil corre o risco de ver o motor do seu agroneg\u00f3cio engasgar justamente quando mais precisa acelerar.<\/strong><\/p>\n<div class=\"wp-block-media-text is-stacked-on-mobile\">\n<figure class=\"wp-block-media-text__media\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"720\" height=\"818\" alt=\"\" class=\"wp-image-4117714 size-full\"  data-lazy- src=\"https:\/\/agromt.news\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/Inadimplencia-no-agro-e-a-fragilidade-orcamentaria-do-seguro-rural.jpg\"\/><img decoding=\"async\" width=\"720\" height=\"818\" src=\"https:\/\/agromt.news\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/Inadimplencia-no-agro-e-a-fragilidade-orcamentaria-do-seguro-rural.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-4117714 size-full\"  \/><\/figure>\n<div class=\"wp-block-media-text__content\">\n<p>*<em><strong>Pedro Loyola<\/strong> \u00e9 consultor em gest\u00e3o de riscos agropecu\u00e1rios e financiamento sustent\u00e1vel e coordenador executivo do Observat\u00f3rio do Seguro Rural da FGV Agro.<\/em><\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n<p><em>O\u00a0<strong>Canal Rural<\/strong>\u00a0n\u00e3o se responsabiliza pelas opini\u00f5es e conceitos emitidos nos textos desta sess\u00e3o, sendo os conte\u00fados de inteira responsabilidade de seus autores. A empresa se reserva o direito de fazer ajustes no texto para adequa\u00e7\u00e3o \u00e0s normas de publica\u00e7\u00e3o.<\/em><\/p>\n<\/p><\/div>\n<p><br \/>\n<br \/><a href=\"https:\/\/www.canalrural.com.br\/opiniao-noticias\/inadimplencia-no-agro-e-a-fragilidade-orcamentaria-do-seguro-rural\/\">Source link <\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A inadimpl\u00eancia no agroneg\u00f3cio brasileiro j\u00e1 virou um problema estrutural. 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