{"id":15313,"date":"2025-06-19T15:32:24","date_gmt":"2025-06-19T19:32:24","guid":{"rendered":"https:\/\/agromt.news\/?p=15313"},"modified":"2025-06-19T15:32:24","modified_gmt":"2025-06-19T19:32:24","slug":"o-calcanhar-de-aquiles-do-agro-brasileiro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agromt.news\/?p=15313","title":{"rendered":"o calcanhar de Aquiles do agro brasileiro"},"content":{"rendered":"<p> <br \/>\n<\/p>\n<div>\n<p>A escalada do conflito entre Israel e Ir\u00e3 reacendeu um alerta preocupante para o agroneg\u00f3cio brasileiro: a poss\u00edvel disparada nos pre\u00e7os da ureia e de outros fertilizantes. <\/p>\n<p>Em um cen\u00e1rio de queda nas cota\u00e7\u00f5es internacionais das commodities agr\u00edcolas, a combina\u00e7\u00e3o entre custos crescentes e receitas em baixa pode corroer drasticamente a j\u00e1 apertada margem de lucro do produtor rural.<\/p>\n<p>O Brasil \u00e9 extremamente vulner\u00e1vel nesse campo. Segundo dados da Associa\u00e7\u00e3o Nacional para Difus\u00e3o de Adubos (Anda), o pa\u00eds importa cerca de 85% dos fertilizantes que consome anualmente \u2014 sendo que, no caso espec\u00edfico da ur\u00e9ia, a produ\u00e7\u00e3o nacional atende a menos de 20% da demanda. <\/p>\n<p>Cerca de 20% da ureia consumida pelo Brasil vem do Ir\u00e3, pa\u00eds diretamente envolvido na atual tens\u00e3o geopol\u00edtica, o que agrava ainda mais a possibilidade de ruptura no fornecimento.<\/p>\n<p>A <strong><a href=\"https:\/\/www.canalrural.com.br\/tag\/china\/\">China<\/a><\/strong> e a \u00cdndia, por sua vez, s\u00e3o os maiores produtores e consumidores globais de ureia. Nesses pa\u00edses, o arroz \u00e9 a principal cultura consumidora do insumo, seguido pelo trigo e outros gr\u00e3os. <\/p>\n<p>J\u00e1 no Brasil, a principal cultura que demanda ureia \u00e9 o milho, seguida pela cana-de-a\u00e7\u00facar e pela soja, tr\u00eas pilares da nossa produ\u00e7\u00e3o agr\u00edcola. Isso refor\u00e7a o impacto direto que qualquer oscila\u00e7\u00e3o no mercado internacional ter\u00e1 sobre o custo de produ\u00e7\u00e3o das nossas lavouras.<\/p>\n<h2 class=\"wp-block-heading\" id=\"h-estrategia-equivocada-do-passado\">Estrat\u00e9gia equivocada do passado<\/h2>\n<p>Esse grau de depend\u00eancia n\u00e3o \u00e9 fruto do acaso, mas de uma decis\u00e3o estrat\u00e9gica equivocada adotada no passado. Com os pre\u00e7os internacionais dos fertilizantes \u2014 especialmente os nitrogenados \u2014 mais baixos que os nacionais, o Brasil optou por importar em vez de estimular a produ\u00e7\u00e3o interna. <\/p>\n<p>Essa escolha levou a Petrobras a desativar diversas plantas de produ\u00e7\u00e3o de fertilizantes nitrogenados, como as unidades em Sergipe e na Bahia. Embora consideradas deficit\u00e1rias na \u00e9poca, tais decis\u00f5es revelaram-se erros estrat\u00e9gicos graves, sobretudo para um pa\u00eds que est\u00e1 entre os maiores produtores agr\u00edcolas do mundo.<\/p>\n<\/div>\n<div>\n<p>Al\u00e9m disso, Israel \u00e9 fornecedor de cloreto de pot\u00e1ssio para o Brasil, nutriente essencial para a fertiliza\u00e7\u00e3o do solo e o bom desenvolvimento de culturas como soja, milho e algod\u00e3o. <\/p>\n<p>A instabilidade no Oriente M\u00e9dio, especialmente com riscos de fechamento de rotas mar\u00edtimas ou sabotagem em infraestrutura log\u00edstica, pode comprometer o fornecimento e pressionar ainda mais os pre\u00e7os desses insumos.<\/p>\n<p>Outro fator agravante \u00e9 o aumento do pre\u00e7o do petr\u00f3leo, que, al\u00e9m de elevar o custo dos pr\u00f3prios fertilizantes nitrogenados (como a ureia, que depende do g\u00e1s natural), impacta diretamente o frete mar\u00edtimo e terrestre, encarecendo o custo de importa\u00e7\u00e3o e distribui\u00e7\u00e3o dos insumos.<\/p>\n<h2 class=\"wp-block-heading\" id=\"h-o-que-o-produtor-pode-fazer\">O que o produtor pode fazer?<\/h2>\n<p>Diante desse cen\u00e1rio, quais estrat\u00e9gias os produtores podem adotar para ajudar a mitigar os riscos?<\/p>\n<ul class=\"wp-block-list\">\n<li><strong>Antecipa\u00e7\u00e3o e compras programadas:<\/strong> produtores que t\u00eam capacidade de armazenagem e acesso a cr\u00e9dito podem se beneficiar da antecipa\u00e7\u00e3o na compra de fertilizantes, evitando a exposi\u00e7\u00e3o \u00e0 alta nos momentos de pico. Firmar contratos antecipados com fornecedores tamb\u00e9m \u00e9 uma estrat\u00e9gia para garantir pre\u00e7os e disponibilidade.<\/li>\n<li><strong>Uso racional de insumos e agricultura de precis\u00e3o:<\/strong> com margens estreitas, o uso eficiente dos recursos ganha ainda mais import\u00e2ncia. T\u00e9cnicas de agricultura de precis\u00e3o, como mapeamento de solo e aplica\u00e7\u00e3o localizada de fertilizantes, ajudam a reduzir o desperd\u00edcio e melhorar o retorno sobre o investimento.<\/li>\n<li><strong>Substitui\u00e7\u00e3o e diversifica\u00e7\u00e3o de fontes:<\/strong> em algumas regi\u00f5es, \u00e9 poss\u00edvel substituir parcialmente a ureia por outras fontes de nitrog\u00eanio, como sulfato de am\u00f4nio ou aduba\u00e7\u00e3o org\u00e2nica. Al\u00e9m disso, buscar fornecedores alternativos pode reduzir a depend\u00eancia de mercados geopol\u00edticos inst\u00e1veis.<\/li>\n<li><strong>Integra\u00e7\u00e3o com pecu\u00e1ria e uso de mat\u00e9ria org\u00e2nica:<\/strong> sistemas integrados de produ\u00e7\u00e3o, como a integra\u00e7\u00e3o lavoura-pecu\u00e1ria (ILP), favorecem o uso de res\u00edduos org\u00e2nicos e pastagens bem manejadas, o que pode reduzir a depend\u00eancia de fertilizantes minerais ao longo do tempo.<\/li>\n<li><strong>Renegocia\u00e7\u00e3o de contratos e cooperativismo:<\/strong> a atua\u00e7\u00e3o conjunta por meio de cooperativas ou associa\u00e7\u00f5es de produtores pode fortalecer o poder de barganha na compra de insumos, al\u00e9m de facilitar o acesso a cr\u00e9dito mais barato e suporte t\u00e9cnico. A renegocia\u00e7\u00e3o de contratos com fornecedores e institui\u00e7\u00f5es financeiras tamb\u00e9m se torna essencial para ajustar prazos e garantir viabilidade financeira.<\/li>\n<li><strong>Travamento de pre\u00e7os no mercado futuro:<\/strong> em tempos de incerteza, travar pre\u00e7os de commodities agr\u00edcolas na bolsa \u00e9 uma forma eficaz de proteger a receita esperada. Com os custos de produ\u00e7\u00e3o sob amea\u00e7a, garantir um valor m\u00ednimo de venda no mercado futuro pode ser decisivo para preservar a rentabilidade, especialmente em culturas com grande liquidez, como soja, milho e caf\u00e9. Essa ferramenta de hedge ajuda a alinhar melhor os custos e a comercializa\u00e7\u00e3o, mesmo em cen\u00e1rios de volatilidade.<\/li>\n<\/ul>\n<h2 class=\"wp-block-heading\" id=\"h-conclusao\">Conclus\u00e3o<\/h2>\n<p>A guerra no Oriente M\u00e9dio exp\u00f5e uma fragilidade estrutural do agroneg\u00f3cio brasileiro: a depend\u00eancia externa de insumos estrat\u00e9gicos. Diante da combina\u00e7\u00e3o explosiva entre o poss\u00edvel aumento do custo da ureia, o encarecimento do frete e a queda das commodities, o produtor precisa agir de forma pragm\u00e1tica, adotando estrat\u00e9gias t\u00e9cnicas, financeiras e coletivas. <\/p>\n<p>Mais do que nunca, a gest\u00e3o eficiente ser\u00e1 decisiva para manter a rentabilidade no campo \u2014 e talvez seja tamb\u00e9m o momento de o pa\u00eds repensar sua pol\u00edtica industrial para fertilizantes, recuperando a capacidade nacional de produ\u00e7\u00e3o e garantindo seguran\u00e7a estrat\u00e9gica para o setor mais din\u00e2mico da economia brasileira.<\/p>\n<div class=\"wp-block-media-text is-stacked-on-mobile\">\n<figure class=\"wp-block-media-text__media\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"683\" height=\"1024\" alt=\"Miguel Daoud\" class=\"wp-image-4095706 size-full\"  data-lazy- src=\"https:\/\/agromt.news\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/Como-guerras-e-crises-moldaram-o-preco-das-commodities-nos.jpg\"\/><img decoding=\"async\" width=\"683\" height=\"1024\" src=\"https:\/\/agromt.news\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/Como-guerras-e-crises-moldaram-o-preco-das-commodities-nos.jpg\" alt=\"Miguel Daoud\" class=\"wp-image-4095706 size-full\"  \/><\/figure>\n<div class=\"wp-block-media-text__content\">\n<p class=\"has-text-align-center\">*<em><strong>Miguel Daoud<\/strong>\u00a0\u00e9 comentarista de Economia e Pol\u00edtica\u00a0do Canal Rural<\/em><\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n<p><em>O\u00a0<strong>Canal Rural<\/strong>\u00a0n\u00e3o se responsabiliza pelas opini\u00f5es e conceitos emitidos nos textos desta sess\u00e3o, sendo os conte\u00fados de inteira responsabilidade de seus autores. A empresa se reserva o direito de fazer ajustes no texto para adequa\u00e7\u00e3o \u00e0s normas de publica\u00e7\u00e3o.<\/em><\/p>\n<\/p><\/div>\n<p><br \/>\n<br \/><a href=\"https:\/\/www.canalrural.com.br\/opiniao-noticias\/fertilizantes-o-calcanhar-de-aquiles-do-agro-brasileiro\/\">Source link <\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A escalada do conflito entre Israel e Ir\u00e3 reacendeu um alerta preocupante para o agroneg\u00f3cio brasileiro: a poss\u00edvel disparada nos<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":15314,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"_uf_show_specific_survey":0,"_uf_disable_surveys":false,"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-15313","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-news"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agromt.news\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/15313"}],"collection":[{"href":"https:\/\/agromt.news\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agromt.news\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agromt.news\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agromt.news\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=15313"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agromt.news\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/15313\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agromt.news\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/15314"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agromt.news\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=15313"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agromt.news\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=15313"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agromt.news\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=15313"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}