{"id":14328,"date":"2025-05-28T16:53:37","date_gmt":"2025-05-28T20:53:37","guid":{"rendered":"https:\/\/agromt.news\/?p=14328"},"modified":"2025-05-28T16:53:37","modified_gmt":"2025-05-28T20:53:37","slug":"destino-ao-alcance-ou-sonho-eterno","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agromt.news\/?p=14328","title":{"rendered":"destino ao alcance ou sonho eterno?"},"content":{"rendered":"<p> <br \/>\n<\/p>\n<div>\n<p>O trigo, insumo essencial na produ\u00e7\u00e3o de alimentos como p\u00e3es, massas e bolos, \u00e9 um dos cereais mais estrat\u00e9gicos do mundo. No Brasil, por\u00e9m, a cadeia produtiva do gr\u00e3o enfrenta desafios hist\u00f3ricos e estruturais que ainda impedem o pa\u00eds de atingir a autossufici\u00eancia. Desde a centraliza\u00e7\u00e3o estatal imposta pelo decreto-lei n\u00ba 210, de 1967, at\u00e9 choques recentes \u2014 como a guerra entre R\u00fassia e Ucr\u00e2nia e as oscila\u00e7\u00f5es no mercado internacional \u2014, a trajet\u00f3ria da triticultura brasileira tem sido marcada por avan\u00e7os e recuos. <\/p>\n<p>Este artigo tra\u00e7a uma linha do tempo da produ\u00e7\u00e3o nacional de trigo, examinando os principais entraves e as oportunidades no caminho rumo \u00e0 autossufici\u00eancia.<\/p>\n<h2 class=\"wp-block-heading\" id=\"h-a-era-da-centralizacao-decreto-lei-dl-n\u00ba-210-1967\"><strong>A era da centraliza\u00e7\u00e3o: decreto-lei (DL) n\u00ba 210\/1967<\/strong><\/h2>\n<p>Em 1967, o governo federal instituiu o decreto-lei n\u00ba 210, criando a Comiss\u00e3o Brasileira de Pol\u00edtica do Trigo e centralizando toda a cadeia produtiva sob controle estatal. A medida visava garantir o abastecimento interno e reduzir a depend\u00eancia crescente das importa\u00e7\u00f5es. Com a centraliza\u00e7\u00e3o, o governo passou a controlar pre\u00e7os, importa\u00e7\u00f5es, moagem e distribui\u00e7\u00e3o. Embora tenha trazido certa previsibilidade e incentivado a produ\u00e7\u00e3o em estados do Sul, o modelo resultou em uma cadeia pouco competitiva, fortemente engessada por regras e subs\u00eddios.<\/p>\n<p>Durante a vig\u00eancia do decreto (1967\u20131989), a produ\u00e7\u00e3o nacional cresceu de 1,8 milh\u00e3o para 2,5 milh\u00f5es de toneladas \u2014 um aumento de 39%. Esse avan\u00e7o, no entanto, decorreu principalmente da expans\u00e3o da \u00e1rea plantada, que saltou de 1,3 milh\u00e3o para 1,8 milh\u00e3o de hectares (54%). Ou seja, o crescimento foi quantitativo (baseado em expans\u00e3o de \u00e1rea), n\u00e3o qualitativo. A produtividade permaneceu baixa, reflexo de um ambiente com pouca competi\u00e7\u00e3o e est\u00edmulos limitados \u00e0 inova\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<h2 class=\"wp-block-heading\" id=\"h-a-abertura-e-a-descentralizacao-decada-de-1990\"><strong>A abertura e a descentraliza\u00e7\u00e3o: d\u00e9cada de 1990<\/strong><\/h2>\n<p>A d\u00e9cada de 1990 marcou o fim da centraliza\u00e7\u00e3o estatal na cadeia do trigo. Com a abertura econ\u00f4mica iniciada no governo Collor e aprofundada no governo FHC, o setor passou a operar sob a l\u00f3gica de mercado. O Estado deixou de exercer controle direto, e os pre\u00e7os passaram a ser definidos pelas cota\u00e7\u00f5es internacionais.<\/p>\n<p>Esse processo de liberaliza\u00e7\u00e3o trouxe efeitos amb\u00edguos. De um lado, houve aumento da competitividade, maior entrada de tecnologias e est\u00edmulo \u00e0 pesquisa agropecu\u00e1ria \u2014 com destaque para o papel da Embrapa Trigo. De outro, a volatilidade dos pre\u00e7os e a concorr\u00eancia com o trigo importado, especialmente da Argentina, desestimularam o plantio em diversas regi\u00f5es. O Brasil passou a importar cerca de 50% do trigo que consome, tornando-se estruturalmente dependente do mercado externo.<\/p>\n<p>Al\u00e9m da desregulamenta\u00e7\u00e3o iniciada em 1990, o setor teve de se adaptar \u00e0 cria\u00e7\u00e3o do Mercosul, com o Tratado de Assun\u00e7\u00e3o (1992), que zerou a Tarifa Externa Comum (TEC) para o trigo, e \u00e0 valoriza\u00e7\u00e3o cambial trazida pelo Plano Real, a partir de 1994. Sem instrumentos estatais de prote\u00e7\u00e3o e incentivo, a produ\u00e7\u00e3o nacional entrou em retra\u00e7\u00e3o: a \u00e1rea plantada encolheu, e a depend\u00eancia externa aumentou, com importa\u00e7\u00f5es variando entre 50% e 60% do consumo anual. Apesar de representar um processo doloroso, essa reestrutura\u00e7\u00e3o era necess\u00e1ria para a moderniza\u00e7\u00e3o do setor.<\/p>\n<h2 class=\"wp-block-heading\" id=\"h-2000-2010-o-cambio-como-motor-de-competitividade\"><strong>2000\u20132010: o c\u00e2mbio como motor de competitividade<\/strong><\/h2>\n<p>No in\u00edcio dos anos 2000, o Brasil experimentou um cen\u00e1rio de c\u00e2mbio flutuante que mudaria profundamente a din\u00e2mica da triticultura nacional. A ampla desvaloriza\u00e7\u00e3o do real \u2014 que chegou a cair cerca de 33% entre fevereiro de 1999 e meados de 2002 \u2014 encareceu o trigo importado em at\u00e9 30% no mercado interno. Esse choque cambial, longe de penalizar o setor, abriu uma janela de oportunidade para que o produtor brasileiro ganhasse competitividade, visto que o gr\u00e3o nacional passou a ter pre\u00e7o mais atraente frente \u00e0s compras externas.<\/p>\n<p>Embora a \u00e1rea plantada tenha se mantido praticamente est\u00e1vel, a produ\u00e7\u00e3o nacional avan\u00e7ou de 3,8 para 5,0 milh\u00f5es de toneladas no mesmo per\u00edodo. Esse crescimento expressivo foi resultado de ganhos substanciais de produtividade: o rendimento m\u00e9dio evoluiu de cerca de 1.854 kg\/ha para 2.381 kg\/ha, um aumento de 28%.<\/p>\n<p>A desvaloriza\u00e7\u00e3o cambial foi o principal catalisador para que produtores investissem em tecnologias de cultivo mais modernas. A ado\u00e7\u00e3o de cultivares tropicalizadas pela Embrapa Trigo, a dissemina\u00e7\u00e3o do plantio direto e o manejo integrado de solo e pragas tornaram-se economicamente vi\u00e1veis diante de pre\u00e7os internos mais lucrativos. Al\u00e9m disso, a maior rentabilidade justificou o uso ampliado de fertilizantes e defensivos de \u00faltima gera\u00e7\u00e3o, elevando a efici\u00eancia da lavoura.<\/p>\n<\/div>\n<div>\n<p>Portanto, entre 2000 e 2010, o c\u00e2mbio n\u00e3o foi apenas uma vari\u00e1vel macroecon\u00f4mica: foi o motor que impulsionou uma virada na triticultura brasileira, demonstrando como a pol\u00edtica cambial pode, indiretamente, fomentar o avan\u00e7o tecnol\u00f3gico e produtivo em uma cadeia agr\u00edcola estrat\u00e9gica.<\/p>\n<h2 class=\"wp-block-heading\" id=\"h-avancos-recentes-e-desafios-estruturais\"><strong>Avan\u00e7os recentes e desafios estruturais<\/strong><\/h2>\n<p>Nos \u00faltimos anos, diversos fatores reacenderam o debate sobre a autossufici\u00eancia trit\u00edcola no Brasil. Entre 2020 e 2022, a alta nas commodities agr\u00edcolas \u2014 impulsionada pela pandemia de Covid-19 e por pol\u00edticas monet\u00e1rias expansionistas \u2014 elevou significativamente os pre\u00e7os internacionais do trigo. Simultaneamente, a guerra entre R\u00fassia e Ucr\u00e2nia, dois dos maiores exportadores mundiais do gr\u00e3o, desestabilizou as cadeias globais de suprimento, acentuando a preocupa\u00e7\u00e3o com a seguran\u00e7a alimentar.<\/p>\n<p>Diante desse cen\u00e1rio, o Brasil passou a observar com maior aten\u00e7\u00e3o sua capacidade interna de produ\u00e7\u00e3o. Enquanto o Paran\u00e1 e o Rio Grande do Sul seguiram como os principais estados produtores, novas fronteiras agr\u00edcolas come\u00e7aram a despontar, especialmente no Cerrado. Pesquisas recentes demonstraram a viabilidade de cultivares adaptadas ao clima tropical em regi\u00f5es como o Mato Grosso e o Distrito Federal, apontando potencial de expans\u00e3o da triticultura.<\/p>\n<p>Apesar desses avan\u00e7os, persistem obst\u00e1culos estruturais relevantes. A aus\u00eancia de pol\u00edticas p\u00fablicas consistentes para o setor, aliada \u00e0 volatilidade cambial e aos altos custos de produ\u00e7\u00e3o, dificulta a consolida\u00e7\u00e3o do trigo como uma cultura de larga escala no pa\u00eds. Mesmo com o crescimento da produtividade e a abertura de novas \u00e1reas de cultivo, o Brasil permanece dependente das importa\u00e7\u00f5es para suprir sua demanda interna, que gira em torno de 12 milh\u00f5es de toneladas por ano.<\/p>\n<h2 class=\"wp-block-heading\" id=\"h-o-sonho-da-autossuficiencia-realidade-ou-miragem\"><strong>O sonho da autossufici\u00eancia: realidade ou miragem?<\/strong><\/h2>\n<p>O Brasil possui, de fato, potencial agron\u00f4mico e tecnol\u00f3gico para ampliar significativamente sua produ\u00e7\u00e3o de trigo. A atua\u00e7\u00e3o da Embrapa e de empresas privadas, com o desenvolvimento de cultivares adaptadas, t\u00e9cnicas de manejo mais eficientes e os avan\u00e7os em regi\u00f5es como o Cerrado, demonstram progressos importantes. Al\u00e9m disso, a crescente preocupa\u00e7\u00e3o com os riscos da depend\u00eancia externa fortalece o debate sobre o tema.<\/p>\n<p>No entanto, considerar a autossufici\u00eancia como um objetivo plenamente vi\u00e1vel a curto ou m\u00e9dio prazo exige cautela. O pa\u00eds ainda enfrenta entraves estruturais importantes, como o alto custo de produ\u00e7\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o a concorrentes internacionais, defici\u00eancias log\u00edsticas e a aus\u00eancia de pol\u00edticas consistentes e de longo prazo para sustenta\u00e7\u00e3o da triticultura. A depend\u00eancia de importa\u00e7\u00f5es, principalmente da Argentina, permanece uma realidade econ\u00f4mica dif\u00edcil de contornar.<\/p>\n<p>Os recentes aumentos de produ\u00e7\u00e3o foram, em grande medida, resposta a eventos conjunturais \u2013 como a pandemia de Covid-19 e o conflito entre R\u00fassia e Ucr\u00e2nia \u2013 que distorceram temporariamente o mercado global. Internamente, o destaque vai para o Rio Grande do Sul, que tem diversificado a demanda com exporta\u00e7\u00f5es e iniciativas como a produ\u00e7\u00e3o de etanol de trigo. Por\u00e9m, essas movimenta\u00e7\u00f5es, embora relevantes, n\u00e3o sinalizam uma transi\u00e7\u00e3o s\u00f3lida rumo \u00e0 autossufici\u00eancia. Pelo contr\u00e1rio, indicam uma reorganiza\u00e7\u00e3o de mercado mais voltada \u00e0 inser\u00e7\u00e3o comercial do que ao abastecimento interno aut\u00f4nomo.<\/p>\n<p>Diante disso, a autossufici\u00eancia em trigo no Brasil ainda parece mais um ideal estrat\u00e9gico do que um cen\u00e1rio realista. O futuro da triticultura brasileira depender\u00e1 menos de desejos e mais de decis\u00f5es pol\u00edticas coordenadas, investimentos consistentes e, sobretudo, de um olhar pragm\u00e1tico sobre as limita\u00e7\u00f5es e oportunidades do pa\u00eds nesse setor.<\/p>\n<div class=\"wp-block-media-text is-stacked-on-mobile\">\n<figure class=\"wp-block-media-text__media\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"470\" height=\"470\" src=\"https:\/\/agromt.news\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/destino-ao-alcance-ou-sonho-eterno.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-4103065 size-full\"  \/><\/figure>\n<div class=\"wp-block-media-text__content\">\n<p><em>*<strong>\u00c9lcio Bento<\/strong> \u00e9 especialista em trigo graduado em Economia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Faz parte da divis\u00e3o de especialistas de Safras &amp; Mercado h\u00e1 mais de 20 anos<\/em><\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n<p><em>O\u00a0<strong>Canal Rural<\/strong>\u00a0n\u00e3o se responsabiliza pelas opini\u00f5es e conceitos emitidos nos textos desta sess\u00e3o, sendo os conte\u00fados de inteira responsabilidade de seus autores. A empresa se reserva o direito de fazer ajustes no texto para adequa\u00e7\u00e3o \u00e0s normas de publica\u00e7\u00e3o.<\/em><\/p>\n<\/p><\/div>\n<p><br \/>\n<br \/><a href=\"https:\/\/www.canalrural.com.br\/opiniao-noticias\/autossuficiencia-de-trigo-no-brasil-destino-ao-alcance-ou-sonho-eterno\/\">Source link <\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O trigo, insumo essencial na produ\u00e7\u00e3o de alimentos como p\u00e3es, massas e bolos, \u00e9 um dos cereais mais estrat\u00e9gicos do<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":14329,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"_uf_show_specific_survey":0,"_uf_disable_surveys":false,"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-14328","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-news"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agromt.news\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/14328"}],"collection":[{"href":"https:\/\/agromt.news\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agromt.news\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agromt.news\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agromt.news\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=14328"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agromt.news\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/14328\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agromt.news\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/14329"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agromt.news\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=14328"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agromt.news\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=14328"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agromt.news\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=14328"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}