O mercado físico do boi gordo ainda apresenta perfil lateralizado, com predominante acomodação dos preços em grande parte do país.
Segundo o analista da consultoria Safras & Mercado Fernando Henrique Iglesias, os frigoríficos se deparam com escalas de abate posicionadas entre sete e nove dias úteis na média nacional, ainda operando com relativo conforto.
“Em determinadas regiões a dificuldade de obtenção de animais padrão China resultou na ocorrência de um ou outro negócio acima da referência média. Ao mesmo tempo, as exportações de carne bovina seguem agressivas, com o país caminhando a passos largos para um recorde histórico, tanto em volume embarcado quanto em receita”, declara.
São Paulo: R$ 304,17
Goiás: R$ 286,07
Minas Gerais: R$ 286,65
Mato Grosso do Sul: R$ 302,73
Mato Grosso: R$ 299,18
Mercado atacadista
O mercado atacadista voltou a registrar preços estáveis para a carne bovina. O ambiente de negócios ainda sugere por alguma fragilidade, considerando o lento escoamento entre atacado e varejo.
“Importante mencionar que importante parcela da população ainda prioriza o consumo de proteínas mais acessíveis, a exemplo da carne de frango, ovos e embutidos”, disse Iglesias.
O quarto traseiro ainda é precificado a R$ 23,90 por quilo, o dianteiro segue no patamar de R$ 19,00 por quilo e a ponta de agulha ainda é cotada a R$ 17,80, por quilo.
Câmbio
O dólar comercial encerrou a sessão em alta de 0,87%, sendo negociado a R$ 5,6952 para venda e a R$ 5,6932 para compra. Durante o dia, a moeda norte-americana oscilou entre a mínima de R$ 5,6442 e a máxima de R$ 5,7172.
Em audiência pública na Comissão de Agricultura, Pecuária, Abastecimento e Desenvolvimento Rural da Câmara dos Deputados nesta quarta-feira (28), o ministro da Agricultura, Carlos Fávaro, informou que o governo ajustou o orçamento para prorrogar dívidas dos produtores rurais do Rio Grande do Sul.
Segundo ele, a questão orçamentária, considerada como entrave para a medida, foi equacionada e o texto está pronto. A previsão é que reunião extraordinária do Conselho Monetário Nacional (CMN) vote a resolução até a sexta-feira (30). O custo para bancar o adiamento dos débitos dos agricultores gaúchos vitimados por estiagens e enchentes será de R$ 136 milhões neste ano.
“Talvez as pessoas se esqueçam de quanto recurso foi liberado no ano passado pelo governo para a reconstrução do Rio Grande do Sul, em todas as áreas”, acrescentou Carlos Fávaro quando provocado pelos parlamentares sobre a demora na aprovação da medida.
De acordo com ele, somente para o setor agropecuário foram liberados mais de R$ 3 bilhões para a repactuação das dívidas dos produtores com as cooperativas. Contudo, ele reconheceu que as medidas ainda não surtiram todos os efeitos esperados.
Presidente da comissão, o deputado Rodolfo Nogueira (PL-MS) pediu a inclusão dos produtores rurais do seu estado na prorrogação das dívidas. “Nós estamos abertos ao diálogo, mas não temos clima para fazer a repactuação ampla e irrestrita no Brasil, porque são casos pontuais, mas muito graves, que precisam de ação”, respondeu o ministro.
Fávaro afirmou que as recuperações judiciais não podem ser banalizadas para estados que não sofreram adversidades, já que os efeitos voltam ao produtor, por meio de restrições ao crédito, e não há fonte orçamentária para isso.
Conforme ele, as medidas de repactuação de dívidas previstas para o Rio Grande do Sul podem ser estendidas para estados que efetivamente precisarem.
Aprovação do Fundagro
A deputada Daniela Reinehr (PL-SC), que também pediu a audiência, solicitou apoio do ministro para a aprovação do PL 711/22 , do ex-deputado Jerônimo Goergen (RS), que cria o Fundo Nacional de Defesa Agropecuária (Fundagro), para permitir resposta imediata a eventos climáticos ou sanitários extremos, como no caso da gripe aviária no Rio Grande do Sul.
O ministro defendeu a universalização e a reformulação do seguro rural, para evitar as dívidas dos produtores por intempéries climáticas. “Eu defendo que seja obrigatório para todos os produtores que acessarem o crédito subsidiado. Quem busca recurso com subvenção do governo, que equaliza taxa de juros, que barateia a taxa de juro tem obrigação de fazer seguro”, afirmou.
Inflação de alimentos
No debate, Carlos Fávaro disse também que as medidas tomadas pelo governo para conter a inflação de alimentos foram cautelosas, mas surtiram efeitos. Entre elas, citou a redução a zero das tarifas do imposto de importação de 11 alimentos, anunciadas em março.
“O último IPCA-15 [Indice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo 15] mostrou o melhor índice dos últimos cinco anos, de 0,36%, ainda positivo, mas já numa decrescente. Era mais de 1% ao mês em abril, agora em maio 0,36%, com destaque para a redução do preço do arroz (-4%), frutas (-2%), tomate (-7%), feijão preto (-7%) e ovos de galinha (-2%)”, anunciou.
Seminário que discutiu os possíveis direcionamentos do novo Plano Safra, promovido pela Associação Brasileira de Máquinas (Abimaq) nesta quarta-feira (28), em Brasília, teve como destaque os investimentos necessários ao aumento da irrigação nas lavouras e a capacidade de armazenagem do país.
De acordo com o presidente da entidade, José Velloso, a tecnologia permite elevar a produção em três vezes sem, com isso, acrescer área plantada.
“No Brasil, temos apenas cerca de 9 milhões de hectares irrigados. Precisaríamos, em dez anos, dobrar essa área para chegar próximo aos 20 milhões de hectares irrigados”. Para concretizar o plano, o executivo diz ser necessário investimento anual de R$ 10 bilhões por ano.
Outro foco do evento foram os aportes necessários a um antigo gargalo do setor: a armazenagem. “No ano de 2024, o próprio governo federal mexeu nas alíquotas de importação de grãos para combater a inflação naquele aumento que estava havendo nas commodities [agrícolas]. Mas sem armazenagem, não adianta. O Brasil não tem como importar grãos sem armazenagem, mas também não tem como armazenar a produção para vender o grão no momento correto.”
Segundo ele, o aumento da capacidade de armazenagem de grãos e cereais é o ingrediente para o Brasil melhorar a qualidade do produto para exportação e garantir que o agricultor tenha fluxo de caixa, não forçando-o a vender em período de baixa por não ter onde guardar sua produção.
Para a Abimaq, seriam necessários R$ 15 bilhões ao ano especificamente para a área de armazenagem. “O plano Safra não vai ter toda essa condição de todos esses recursos [somados aos R$ 10 bilhões para irrigação]. No entanto, estamos esperando mais um recorde de Plano Safra nesse governo”, finaliza Velloso.
O mercado brasileiro de soja registrou preços pouco alterados nesta quarta-feira (28), com viés de baixa e negociações pontuais. De acordo com o consultor da Safras & Mercado, Rafael Silveira, a comercialização foi limitada a poucos lotes, refletindo a retração do produtor diante de um cenário externo e cambial pouco atrativo. A Bolsa de Chicago encerrou o dia em queda, o dólar teve valorização e os prêmios seguiram voláteis, o que dificultou estímulos para novas vendas.
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Soja no Brasil
Passo Fundo (RS): manteve em R$ 128,00
Santa Rosa (RS): manteve em R$ 129,00
Rio Grande (RS): caiu de R$ 135,00 para R$ 134,00
Cascavel (PR): manteve em R$ 128,00
Paranaguá (PR): caiu de R$ 135,00 para R$ 134,00
Rondonópolis (MT): manteve em R$ 116,00
Dourados (MS): caiu de R$ 119,50 para R$ 119,00
Rio Verde (GO): manteve em R$ 117,50
Contratos futuros da soja
Os contratos futuros da soja negociados na Bolsa de Mercadorias de Chicago (CBOT) encerraram o dia em baixa, pressionados pelo bom ritmo de plantio nos Estados Unidos, ampla oferta brasileira e fraca demanda pela soja americana. Segundo o Departamento de Agricultura dos EUA (USDA), até o dia 25 de maio, 76% da área destinada à soja já havia sido plantada. No mesmo período do ano passado, o percentual era de 66%, enquanto a média dos últimos cinco anos está em 68%. Na semana anterior, o plantio estava em 66%.
Os contratos com entrega em julho recuaram 14,00 centavos de dólar ou 1,31%, fechando a US$ 10,48 1/2 por bushel. A posição novembro caiu 12,75 centavos ou 1,2%, encerrando em US$ 10,45 1/4 por bushel.
Nos subprodutos, o farelo para julho caiu US$ 2,60 ou 0,87%, cotado a US$ 293,70 por tonelada. O óleo com vencimento em julho fechou a 48,93 centavos de dólar por libra-peso, com recuo de 0,64 centavo ou 1,29%.
Dólar
O dólar comercial fechou em alta de 0,87%, cotado a R$ 5,6952 para venda e R$ 5,6932 para compra. A moeda oscilou entre a mínima de R$ 5,6442 e a máxima de R$ 5,7172 ao longo do dia.
Minas Gerais atingiu um novo recorde nas exportações do agronegócio durante o primeiro quadrimestre de 2025. De acordo com levantamento da Secretaria de Estado de Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Seapa), o setor respondeu por 46,8% das exportações totais do estado, com uma receita de US$ 6,5 bilhões e 5 milhões de toneladas embarcadas.
O desempenho representa o melhor resultado já registrado para o período desde o início da série histórica, em 1997. Em relação ao mesmo período de 2024, houve crescimento de 26% na receita, mesmo com uma retração de 6,2% no volume exportado. O avanço no faturamento foi impulsionado pela valorização média de 34% no preço por tonelada das commodities agropecuárias mineiras.
A Seapa estima que, mantidas as tendências atuais de preços e comportamento sazonal, o estado deve encerrar o ano com exportações agropecuárias entre US$ 19,5 bilhões e US$ 20,5 bilhões. “Esse desempenho reforça a posição de Minas como terceiro maior exportador do agro no Brasil, atrás apenas de Mato Grosso e São Paulo”, destacou a secretaria.
Os produtos mineiros foram enviados a 160 destinos internacionais, com destaque para a China (23%), Estados Unidos (13%), Alemanha (9%), Itália (6%) e Japão (5%).
O café liderou a pauta de exportações do agronegócio mineiro, com US$ 3,9 bilhões em receita e embarque de 10 milhões de sacas. Apesar da queda de 3% no volume devido à entressafra, o faturamento subiu 70% na comparação com o primeiro quadrimestre de 2024, representando 60% da receita total do setor no estado.
A soja, incluindo grãos, farelo e óleo, somou US$ 1,1 bilhão em receita e 2,9 milhões de toneladas exportadas. Houve queda de 9% no valor e crescimento de 0,7% no volume. Segundo a Seapa, os preços seguem pressionados por fatores como a guerra comercial entre Estados Unidos e China e o início do plantio do grão nos EUA.
Entre os destaques do período, os ovos registraram crescimento expressivo no mercado internacional. As exportações alcançaram US$ 6,6 milhões, com aumento de 495% no valor e 278% no volume, totalizando 3 mil toneladas. A demanda foi impulsionada principalmente pelos Estados Unidos, que enfrentam dificuldades no setor avícola devido à influenza aviária.
As carnes também registraram avanço. O total exportado somou US$ 533 milhões, com 158 mil toneladas embarcadas. A carne bovina respondeu por US$ 374 milhões e 78 mil toneladas, com alta de 19% em receita e 8% em volume. Os Estados Unidos ampliaram suas compras, com aumento de até 195%.
A carne suína movimentou US$ 24 milhões, com 11 mil toneladas vendidas. As Filipinas estrearam como destino e já ocupam o quarto lugar entre os principais compradores, com 10% dos embarques. A carne de frango totalizou US$ 128 milhões e 66 mil toneladas, com crescimento de 17% em valor e 10% em volume. As vendas para a China e os Países Baixos foram os destaques.
O segmento de produtos florestais — celulose, papel e madeira — superou o complexo sucroalcooleiro, ocupando a quarta posição entre os grupos exportadores do agro mineiro, com US$ 339 milhões e 559 mil toneladas. A mudança foi resultado da queda de 42,5% na receita e de 38% no volume do setor sucroalcooleiro, que fechou o quadrimestre com US$ 334 milhões e 711 mil toneladas exportadas. O recuo foi atribuído às condições climáticas desfavoráveis, que afetaram o desenvolvimento da cana-de-açúcar e comprometeram a produção de açúcar e etanol.
A Agência de Defesa Agropecuária da Bahia (Adab) alerta os setores produtivo e comercial para o monitoramento e controle de pragas como as moscas-das-frutas nos pomares, com o início das exportações de manga, destinadas aos EUA, programado para primeiro de julho.
Segundo a Adab, para alinhamento e atualização de procedimentos, o órgão vai realizar uma série de reuniões técnicas, no próximo dia 29, no auditório da entidade parceira, Valexport, em Petrolina (PE).
“O objetivo é orientar produtores, exportadores, Responsáveis Técnicos (RTs) de estabelecimentos de tratamento e unidades de produção, melhorando o controle e reduzindo o índice populacional da praga quarentenária moscas-das-frutas, em pomares de mangas registrados para exportar ao mercado americano, principal comprador”, ressalta o coordenador do Projeto Fitossanitário de Controle das Moscas-das-Frutas da Adab, Weber Aguiar.
Na programação, com público estimado de 60 pessoas, segundo organização, os participantes serão atualizados sobre as normas e obrigatoriedade do monitoramento e controle em âmbito federal e estadual, bem como, sobre todas as ferramentas existentes para controlar a praga quarentenária moscas-das-frutas em pomares registrados, que exportam mangas para o mercado americano.
Foto: Marcelino Ribeiro
Também serão socializados pontos críticos e riscos identificados pelo Serviço de Inspeção Sanitária Animal e Vegetal dos Estados Unidos (APHIS), e como deve ser feito o controle pelos participantes do programa.
Na oportunidade, a Adab informou que lançará um novo canal de atendimento para que o setor produtivo e a população possam fazer denúncias, tirar dúvidas sobre a praga, o MoscaZap (71) 99945-8008.
Mercado internacional
A abertura da exportação de manga da Bahia geralmente acontece durante a chamada “janela de exportação”, que coincide com a safra da fruta no Nordeste, principalmente em estados como Bahia, Pernambuco e Rio Grande do Norte.
Essa janela de exportação permite que a Bahia aproveite um período em que há menor oferta de manga em outros países, como o Equador, beneficiando a demanda pela fruta brasileira.
Importância
Ainda segundo a Adab, em 2024, a região do Vale do São Francisco, que abrange as cidades Petrolina (PE) e Juazeiro (BA), consolidou-se como um dos principais polos de exportação de frutas do Brasil.
A fruticultura irrigada da região, beneficiada por condições climáticas favoráveis e infraestrutura adequada, permitiu o cultivo e a exportação de diversas frutas tropicais.
A manga continuou sendo a principal fruta exportada pela região. O Vale do São Francisco é responsável por cerca de 95% da manga exportada pelo Brasil.
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O Governo do Distrito Federal fechou temporariamente o Jardim Zoológico de Brasília, a partir desta quarta-feira (28), após a identificação de duas aves mortas nas dependências do local.
Os casos envolvem um pombo e um marreco irerê, que são animais de vida livre e não fazem parte do plantel do zoológico. Amostras dos animais foram recolhidas pela Secretaria de Agricultura, Abastecimento e Desenvolvimento Rural (Seagri-DF) e serão enviadas ao Laboratório Federal de Defesa Agropecuária do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) para análise de possíveis casos de gripe aviária.
“Reforçamos que não há nenhum outro caso suspeito registrado até o momento, seja entre animais de vida livre ou outras aves no Distrito Federal. A Seagri-DF é o órgão responsável pela sanidade animal no DF e conduzirá toda a investigação, seguindo os protocolos nacionais desenvolvidos pelo Mapa”, informou a pasta, segundo a qual não há prazo para a reabertura do zoológico aos visitantes.
Segundo o órgão, o fechamento preventivo segue os protocolos de biossegurança e tem como objetivo proteger a saúde dos animais, dos colaboradores e dos visitantes. A reabertura do parque será avaliada assim que os resultados laboratoriais forem concluídos e não houver risco à saúde pública.
Gripe aviária
A influenza aviária, comumente conhecida como gripe aviária, afeta principalmente aves, mas também já foi detectada em mamíferos, incluindo bovinos.
A transmissão ocorre pelo contato com aves doentes e também por meio da água e de materiais contaminados.
A doença raramente afeta humanos, e a orientação é que as pessoas se mantenham informadas e adotem as medidas preventivas recomendadas.
Segundo o Ministério da Agricultura, carnes e ovos podem ser consumidos com segurança, desde que preparados adequadamente.
O trigo, insumo essencial na produção de alimentos como pães, massas e bolos, é um dos cereais mais estratégicos do mundo. No Brasil, porém, a cadeia produtiva do grão enfrenta desafios históricos e estruturais que ainda impedem o país de atingir a autossuficiência. Desde a centralização estatal imposta pelo decreto-lei nº 210, de 1967, até choques recentes — como a guerra entre Rússia e Ucrânia e as oscilações no mercado internacional —, a trajetória da triticultura brasileira tem sido marcada por avanços e recuos.
Este artigo traça uma linha do tempo da produção nacional de trigo, examinando os principais entraves e as oportunidades no caminho rumo à autossuficiência.
A era da centralização: decreto-lei (DL) nº 210/1967
Em 1967, o governo federal instituiu o decreto-lei nº 210, criando a Comissão Brasileira de Política do Trigo e centralizando toda a cadeia produtiva sob controle estatal. A medida visava garantir o abastecimento interno e reduzir a dependência crescente das importações. Com a centralização, o governo passou a controlar preços, importações, moagem e distribuição. Embora tenha trazido certa previsibilidade e incentivado a produção em estados do Sul, o modelo resultou em uma cadeia pouco competitiva, fortemente engessada por regras e subsídios.
Durante a vigência do decreto (1967–1989), a produção nacional cresceu de 1,8 milhão para 2,5 milhões de toneladas — um aumento de 39%. Esse avanço, no entanto, decorreu principalmente da expansão da área plantada, que saltou de 1,3 milhão para 1,8 milhão de hectares (54%). Ou seja, o crescimento foi quantitativo (baseado em expansão de área), não qualitativo. A produtividade permaneceu baixa, reflexo de um ambiente com pouca competição e estímulos limitados à inovação.
A abertura e a descentralização: década de 1990
A década de 1990 marcou o fim da centralização estatal na cadeia do trigo. Com a abertura econômica iniciada no governo Collor e aprofundada no governo FHC, o setor passou a operar sob a lógica de mercado. O Estado deixou de exercer controle direto, e os preços passaram a ser definidos pelas cotações internacionais.
Esse processo de liberalização trouxe efeitos ambíguos. De um lado, houve aumento da competitividade, maior entrada de tecnologias e estímulo à pesquisa agropecuária — com destaque para o papel da Embrapa Trigo. De outro, a volatilidade dos preços e a concorrência com o trigo importado, especialmente da Argentina, desestimularam o plantio em diversas regiões. O Brasil passou a importar cerca de 50% do trigo que consome, tornando-se estruturalmente dependente do mercado externo.
Além da desregulamentação iniciada em 1990, o setor teve de se adaptar à criação do Mercosul, com o Tratado de Assunção (1992), que zerou a Tarifa Externa Comum (TEC) para o trigo, e à valorização cambial trazida pelo Plano Real, a partir de 1994. Sem instrumentos estatais de proteção e incentivo, a produção nacional entrou em retração: a área plantada encolheu, e a dependência externa aumentou, com importações variando entre 50% e 60% do consumo anual. Apesar de representar um processo doloroso, essa reestruturação era necessária para a modernização do setor.
2000–2010: o câmbio como motor de competitividade
No início dos anos 2000, o Brasil experimentou um cenário de câmbio flutuante que mudaria profundamente a dinâmica da triticultura nacional. A ampla desvalorização do real — que chegou a cair cerca de 33% entre fevereiro de 1999 e meados de 2002 — encareceu o trigo importado em até 30% no mercado interno. Esse choque cambial, longe de penalizar o setor, abriu uma janela de oportunidade para que o produtor brasileiro ganhasse competitividade, visto que o grão nacional passou a ter preço mais atraente frente às compras externas.
Embora a área plantada tenha se mantido praticamente estável, a produção nacional avançou de 3,8 para 5,0 milhões de toneladas no mesmo período. Esse crescimento expressivo foi resultado de ganhos substanciais de produtividade: o rendimento médio evoluiu de cerca de 1.854 kg/ha para 2.381 kg/ha, um aumento de 28%.
A desvalorização cambial foi o principal catalisador para que produtores investissem em tecnologias de cultivo mais modernas. A adoção de cultivares tropicalizadas pela Embrapa Trigo, a disseminação do plantio direto e o manejo integrado de solo e pragas tornaram-se economicamente viáveis diante de preços internos mais lucrativos. Além disso, a maior rentabilidade justificou o uso ampliado de fertilizantes e defensivos de última geração, elevando a eficiência da lavoura.
Portanto, entre 2000 e 2010, o câmbio não foi apenas uma variável macroeconômica: foi o motor que impulsionou uma virada na triticultura brasileira, demonstrando como a política cambial pode, indiretamente, fomentar o avanço tecnológico e produtivo em uma cadeia agrícola estratégica.
Avanços recentes e desafios estruturais
Nos últimos anos, diversos fatores reacenderam o debate sobre a autossuficiência tritícola no Brasil. Entre 2020 e 2022, a alta nas commodities agrícolas — impulsionada pela pandemia de Covid-19 e por políticas monetárias expansionistas — elevou significativamente os preços internacionais do trigo. Simultaneamente, a guerra entre Rússia e Ucrânia, dois dos maiores exportadores mundiais do grão, desestabilizou as cadeias globais de suprimento, acentuando a preocupação com a segurança alimentar.
Diante desse cenário, o Brasil passou a observar com maior atenção sua capacidade interna de produção. Enquanto o Paraná e o Rio Grande do Sul seguiram como os principais estados produtores, novas fronteiras agrícolas começaram a despontar, especialmente no Cerrado. Pesquisas recentes demonstraram a viabilidade de cultivares adaptadas ao clima tropical em regiões como o Mato Grosso e o Distrito Federal, apontando potencial de expansão da triticultura.
Apesar desses avanços, persistem obstáculos estruturais relevantes. A ausência de políticas públicas consistentes para o setor, aliada à volatilidade cambial e aos altos custos de produção, dificulta a consolidação do trigo como uma cultura de larga escala no país. Mesmo com o crescimento da produtividade e a abertura de novas áreas de cultivo, o Brasil permanece dependente das importações para suprir sua demanda interna, que gira em torno de 12 milhões de toneladas por ano.
O sonho da autossuficiência: realidade ou miragem?
O Brasil possui, de fato, potencial agronômico e tecnológico para ampliar significativamente sua produção de trigo. A atuação da Embrapa e de empresas privadas, com o desenvolvimento de cultivares adaptadas, técnicas de manejo mais eficientes e os avanços em regiões como o Cerrado, demonstram progressos importantes. Além disso, a crescente preocupação com os riscos da dependência externa fortalece o debate sobre o tema.
No entanto, considerar a autossuficiência como um objetivo plenamente viável a curto ou médio prazo exige cautela. O país ainda enfrenta entraves estruturais importantes, como o alto custo de produção em relação a concorrentes internacionais, deficiências logísticas e a ausência de políticas consistentes e de longo prazo para sustentação da triticultura. A dependência de importações, principalmente da Argentina, permanece uma realidade econômica difícil de contornar.
Os recentes aumentos de produção foram, em grande medida, resposta a eventos conjunturais – como a pandemia de Covid-19 e o conflito entre Rússia e Ucrânia – que distorceram temporariamente o mercado global. Internamente, o destaque vai para o Rio Grande do Sul, que tem diversificado a demanda com exportações e iniciativas como a produção de etanol de trigo. Porém, essas movimentações, embora relevantes, não sinalizam uma transição sólida rumo à autossuficiência. Pelo contrário, indicam uma reorganização de mercado mais voltada à inserção comercial do que ao abastecimento interno autônomo.
Diante disso, a autossuficiência em trigo no Brasil ainda parece mais um ideal estratégico do que um cenário realista. O futuro da triticultura brasileira dependerá menos de desejos e mais de decisões políticas coordenadas, investimentos consistentes e, sobretudo, de um olhar pragmático sobre as limitações e oportunidades do país nesse setor.
*Élcio Bento é especialista em trigo graduado em Economia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Faz parte da divisão de especialistas de Safras & Mercado há mais de 20 anos
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O plantio da safra 2025/26 de soja nos Estados Unidos avançou e já alcança 76% da área projetada, segundo o relatório semanal do Departamento de Agricultura dos EUA (USDA), com dados até 25 de maio. Esse ritmo é superior tanto ao registrado no mesmo período do ano passado (66%) quanto à média dos últimos anos (68%).
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A área estimada para o cultivo da oleaginosa nesta temporada é de 33,79 milhões de hectares, uma leve retração em relação ao ciclo anterior, que somou 35,25 milhões de hectares. Apesar disso, as lavouras demonstram bom desenvolvimento: 50% já estão na fase de emergência, superando a média normal de 40%.
Projeções para a soja
O USDA projeta uma produção de 118,12 milhões de toneladas de soja na atual temporada, número ligeiramente abaixo do registrado em 2024/25 (118,84 milhões de toneladas), mas ainda expressivo. O desempenho do plantio é impulsionado por condições climáticas favoráveis em grande parte do Meio-Oeste americano, principal região produtora do país.
O governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite, encaminhou nesta quarta-feira (28), um ofício ao Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) solicitando urgência na aprovação da prorrogação das dívidas dos produtores rurais do estado.
A proposta tem como objetivo beneficiar mais de 124 mil produtores que enfrentam dificuldades financeiras após perdas significativas causadas por estiagens e enchentes.
Inicialmente, a medida seria deliberada pelo Conselho Monetário Nacional (CMN) na última quinta-feira (22), mas a divulgação do Relatório de Avaliação de Receitas e Despesas Primárias do 2º bimestre, que impôs um severo ajuste fiscal, mostrou a dificuldade do governo federal em viabilizar o orçamento necessário para a aprovação imediata da proposta.
Por conta desse impasse, Leite anunciou que o governo estadual está disposto a assumir os custos do primeiro ano da prorrogação, estimados em R$ 136 milhões, por meio do Fundo do Plano Rio Grande (Funrigs) ou outra fonte compatível. A proposta será formalizada por meio de convênio com a União.
“A prorrogação do vencimento das dívidas dos produtores rurais é urgente e crítica para o Rio Grande do Sul. Temos trabalhado insistentemente nisso. Na semana passada, houve uma sinalização forte por parte do governo federal de que seria aprovada, mas ela não aconteceu até agora”, afirmou Leite. “Se o problema é orçamentário, o governo do estado pode viabilizar este valor, mas que seja feita a aprovação pelo CMN para dar fôlego aos nossos produtores.”
Mapa deu prazo para a aprovação
Em audiência no Senado nesta terça-feira (27), o ministro da Agricultura e Pecuária (Mapa), Carlos Fávaro, ressaltou que a expectativa é que o aval do CMN para a resolução ocorra ainda nesta semana, no mais tardar na sexta-feira (30). O chefe da pasta disse, inclusive, que o processo será retroativo, contemplando débitos já vencidos.
Ainda assim, o ministro reconheceu que não há definição a respeito de quais programas a verba será remanejada para arcar com o adiamento das dívidas dos produtores. Para isso, afirmou manter conversas com Fernando Haddad, da Fazenda, e Simone Tebet, do Planejamento e Orçamento.
Para ele, seria pertinente que parte do dinheiro fosse proveniente do Fundo Clima, visto que a tragédia que se abateu sobre os produtores do estado teve como origem os impactos das mudanças climáticas.
Dívidas e capacidade de produção
O objetivo da proposta emergencial de prorrogação das dívidas é o de preservar a capacidade de produção e adimplência dos produtores rurais, além de garantir a sustentabilidade do setor agropecuário em um momento considerado crítico.
O governo estadual também alertou para a urgência da medida, considerando a proximidade do vencimento das parcelas dos financiamentos e o risco de inadimplência generalizada.